Invictus:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: EUA
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Morgan Freeman, Matt Damon, Tony Kgoroge, Patrick Mofokeng, Matt Stern.
Duração: 134 min.
Estréia: 29/01/2010
Ano: 2009


Somente os atores.


Autor: Gabriel Carneiro

Invictus é o pior filme de Clint Eastwood desde “Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal”. Isso, claro, não significa que o filme é ruim. Convenhamos, Clint raramente faz algo ruim. Parte dos principais elementos do cinema do diretor está lá: o carinho especial por seus personagens, a reflexão sobre o ser humano, a noção de história bem contada, sem amarras soltas, etc. Porém, o que mais falta e que lhe garante um lugar entre os maiores cineastas que já existiram é a sutileza.

Isso porque, no cinema de Clint, não importa a história, o acúmulo de clichê e/ou de sentimentalismos, pois sua câmera é austera e sua condução sóbria. Ele foge dos exageros, sabe que quanto menos for melodramático, mais irá tocar o público, vide os finais de “Menina de Ouro” e de “Gran Torino”. São filmes que se aproveitam de elementos feitos claramente para sensibilizar o público – e assim o fazem -, mas de forma contida. Ele sabe o que não precisa mostrar, sem postergar a cena. Cito, como exemplo, uma passagem de “Crime Verdadeiro” (contém “spoilers”). Lá há o jornalista implacável que tem uma intuição, a de que um homem condenado à morte não é culpado. Ele vai tentar comprovar sua tese, mesmo todo mundo o tendo como louco e bêbado. No último minuto, prova sua tese e consegue que a execução seja interrompida, no meio. Ao invés de mostrar se conseguiram despertá-lo, se viveu ou não, a recuperação do sujeito, de forma a explorar o sentimento das pessoas durante a injeção letal, Clint simplesmente mostra o jornalista saindo do bar e vendo o condenado passeando com a família. Não precisa de mais que isso. É essa sutileza que o torna tão grande.

Em Invictus, Clint se baseia numa história verídica. Conta como a África do Sul viu o segregacionismo esvair-se pela paixão pelo time de rugby. Mandela já como presidente passa a apoiar a seleção, apelidada de Sprignboks, formada e apoiada basicamente por brancos, visando à união do país. Existe o clichê. O velho (Mandela) e o novo (capitão da seleção) que aprenderão um com o outro, tendo a inspiração como mensagem. Mais: superarão o preconceito – porque, afinal, isso é malvisto oficialmente pela sociedade. Porém, falta a tal sutileza, porque Clint faz questão de explorar as cenas de forma a emocionar o espectador, forçosamente. Longas tomadas em câmera lenta, o passeio pela cela do presidente, o ingresso à empregada negra dado pelo capitão. Eastwood parece ter perdido a mão, mesmo que crie cenas impressionantes (a visita de Mandela antes da final, bem como todas suas conversas com a equipe e com a secretária, etc.). O que mais se aproxima da capacidade do diretor em criar a sobriedade, em passar a mensagem, e fugir do clichê pela maneira que mostra é quando Mandela observa pela janela seus seguranças, brancos e negros, a jogarem rugby. Outra cena que também, particularmente, me encanta é quando, durante a primeira conversa entre os dois personagens principais, Mandela conta sobre o poema “Invictus”.

Aliás, o grande triunfo mesmo do filme parecem ser os personagens, tanto o Nelson ‘Mandiba’ Mandela de Morgan Freeman quanto o capitão François Pienaar de Matt Damon, com vantagem para o ator veterano. Excelentes atuações, conduzidas brilhantemente por Eastwood. Neles, não há exageros, neles há sobriedade e sutileza. São as forças motrizes do longa, personagens que se atentam ao detalhe, ao gesto, e especialmente ao olhar. Talvez seja isso o que mais decepcionante há no filme de Clint Eastwood. Invictus é um filme feito para os atores e seus personagens brilharem – eles, e só eles.

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Uma história genial, um roteiro quadrado.