Só Dez Por Cento É Mentira:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Pedro Cezar.
Elenco: Documentário.
Duração: 78 min.
Estréia: 22/01/2010
Ano: 2008


Na contramão da simplicidade do poeta


Autor: Cesar Zamberlan

Diretor do documentário “Fábio Fabuloso” que tratava da trajetória de um surfista, em Só 10 Por Cento É Mentira, Pedro cinebiografa a vida do poeta sul-mato-grossense Manoel de Barros e o seu grande mérito foi conseguir entrevistar o poeta que é totalmente avesso a esse tipo de registro e a qualquer tipo de badalação. Fora isso, o documentário acaba servindo apenas como um divulgador da obra do poeta para aqueles que não a conhecem, uma espécie de vitrine chique de Shopping Center ou da Oscar Freire em São Paulo, mas peca em alguns exageros formais que chegam a irritar por querer ser engraçadinho ou moderninho demais sempre.

Pedro Cezar mantém de forma mais comedida a estrutura do seu filme anterior. A narração, na voz do próprio diretor, com um texto engraçadinho, cheio de piruetas verbais; elementos gráficos bonitinhos; uma fotografia que privilegia um padrão de cores calcada em elementos do universo do poeta, mas toda uma sofisticação suspeita pela falta de verdade que emana; há também uma busca por situações narrativas que sejam tão geniais quanto à poesia do poeta e ai o filme escorrega de novo na pretensão e na falsidade. Certas coisas parecem bonitas, mas logo se percebe o quanto são despropositadas ao buscarem um diálogo com a poesia de Manoel de Barros e no jogo criativo que a gera.

O filme acaba, no entanto, funcionando bem para o público, mas mais, ou melhor, quase que totalmente pela qualidade da poesia de Barros colocada em letreiros na tela todo o tempo do que pela construção narrativa do filme em si. Poucas seqüências, talvez apenas aquelas que tratem de dois amigos que servem de “inspiração” para alguns poemas de Manoel de Barros, conseguem trazer alguma vida ao filme. E também neste caso, isso ocorre porque o documentarista se apóia firmemente na força e no carisma desses personagens. É óbvio que não é fácil criar uma estrutura narrativa que trate de um poeta tão surpreendente na sua (des)construção da linguagem, mas querer competir com ele foi um equivoco. A seqüência na qual manchas na parede se transformam em imagens, após um efeito gráfico riscar seus contornos na tela, é a maior prova disso. Acho bem legal o fato de Pedro Cezar não creditar os entrevistados usando nome e sobrenome quando falam, só fazendo isso nos créditos finais, pois tira o argumento de autoridade, citado até por Manoel de Barros no filme, que acaba por dar maior força a um depoimento em vista do sobrenome da pessoa ou do seu breve currículo. Tal atitude, essa sim, parece em consonância com a simplicidade de Manoel de Barros, mas no mais o filme adorna ao extremo a poesia de Barros, algo oposto ao registro que ele busca, e prestando até um desserviço à sua poesia ainda que possa ajudar a vender ainda mais os livros do poeta.

Leia também: