Chéri:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Inglaterra/Alemanha
Direção: Stephen Frears
Elenco: Michelle Pfeiffer, Rupert Friend, Kathy Bates e Felicity Jones.
Duração: 93 min.
Estréia: 22/01/2010
Ano: 2009


Colette, muito mais moderna do que Frears.


Autor: Cid Nader

Têm filmes que parecem bem deslocados no tempo e no espaço. Deslocados de importância e sem nenhuma razão aparente para se imaginá-los realizados e lançados: sem que nenhuma regra comum ao “cinema de situações” ou “de época” tenha sido quebrada em busca de fazê-los aceitáveis; sem que nenhuma invenção ou novidade narrativa tenha sido oferecida como uma possibilidade de imersão no sempre desejado avanço das qualidades cinematográficas; sem que traços autorias tenham sido reafirmados – o que possibilitaria entender transições de veículos narrativos (literatura para o cinema, por exemplo) e as distâncias “seculares” de pensamentos – e mais uma peça evidente dentro da composição de trabalhos com tal matiz (esses de assinatura inquestionável) se fizesse evidente na composição de um equilibrado trabalho ao longo dos tempos.

Esses tipos de histórias e de filmes tendem a fazer crer que uma busca fácil, de público fácil e acomodado com historinhas inofensivas – e quando digo inofensivas não as descredencio de sua importância em algum momento histórico específico, mas questiono a razão de serem contadas com artifícios simplistas que, provavelmente, perturbariam e desagradariam o autor o autora, de então –, por vezes pode acometer, além da indústria sedenta por natureza da arrecadação certa e do retorno financeiro, autores que já tiveram (ou ainda tem) forte importante artística no mundo da sétima arte.

Pensando na arte cinema e no autor em questão, não dá para pensar em Stephen Frears como um diretor que busque identidade autoral pelo transcorrer se dua longa e profícua carreira, tanto quanto não dá para incensá-lo como autor regular ou em ascensão, ou sequer estável por todo esse período de “seu exercício aqui na Terra”. Diretor que começou fazendo filmes baratíssimos e autenticamente em busca da transgressão e de denúncias (trabalhistas, segregacionistas, ligeiros e afeitos a bons modismos estéticos da época – principalmente os da década de oitenta), como “Minha Adorável Lavanderia” (1985), por exemplo, pulou o muro em direção da fama e do establishment, onde se acasulou e ficou, com algumas poucas boas sacadas (“Os Imorais”, de 1990, ou “Alta Fidelidade”, 2000) e muitas coisas de teor absolutamente “higienizado”.

E de higienizado, sem nenhuma dúvida, podemos chamar esse seu novo Chéri, para começar. Filme que se utiliza da obra mais famosa, de uma autora revolucionária para sua época (início do século XX), Colette, e que não consegue criar um trânsito temporal minimamente crível entre os tempos, as mídias os ideais. Frears romantizou e açucarou a história que fala de uma prostituta, ou cortesã (de várias, aliás), interpretada por Michelle Pfeifer, de nome Léa, já na meia idade; história que embate o fim de um ciclo glamuroso, na sociedade francesa do início do século passado, diante da Guerra que se aproximava, e das reformas humanas que enxotavam pequenas burguesias e abriam espaços para o povo, mas que foi retratada pelas lentes de Frears como algo de belo aspecto visual e de lúdicas recordações imagéticas de um período ainda idílico.

Mesmo em se acreditando que o diretor estivesse imbuído do espírito contestador e denunciador da obra e da autora – o que sinceramente não me pareceu ser o caso -, o resultado é daqueles que fazem questionar razões de se remontar a outros tempos: resultou m filme de aspectos e conformações que lembram singelas novelas das seis horas, nos tempos em que a TV Globo ainda as fazia, e não a beleza singular e secura da obra literária.

Pensando na arte literatura: Colette (Sidonie Gabrielle Colette) tem uma extensão de obra bastante lida e reconhecida como atenta a seu tempo, tanto como desafiadora dos costumes. Especificamente em Chéri, o que se nota é que não há espaço desnecessário para divagações e evocações ao belo. Há uma mulher mais madura e mais ansiosa do que do filme de Stephen Frears, Há modulações muito mais concretas no jovem Chéri. Há os traços de uma autora que não merecia ser reduzida à compreensão de um tempo recheado de imagens saudosistas e fincado no seu tempo – ela transgrediu sua época, muito mais fortemente do que o filme tenta fazer supor.

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