Amor Sem Escalas:


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Original: Up in the Air
País: EUA
Direção: Jason Reitman.
Elenco: Jason Bateman, George Clooney, Anna Kendrick, Vera Farmiga.
Duração: 104 min.
Estréia: 22/01/2010
Ano: 2009


Liçãozinha de moral


Autor: Fernando Oriente

Amor Sem Escalas, de Jason Reitman, é um desses filmes que, a cada ano, estréiam antes das premiações tradicionais do cinema americano (Globo de Ouro, Oscar, prêmios dos sindicatos, etc.) e procuram seduzir o público e aqueles que votam em tais prêmios com mensagens edificantes e críticas superficiais ao mundo em que vivemos. O grande problema desse tipo de discurso raso, que busca um efeito edificante, é que graças à fragilidade de sua argumentação e o acúmulo de lugares comuns, acaba por legitimar aquilo que critica devido ao alto teor de conformismo que a falta de profundidade produz. A falta de coragem do argumento e a necessidade de acomodar os personagens e as situações às regras de conduta aceitas pela visão conciliadora e comodista do discurso defendido pela indústria cultural fazem com que esses produtos não passem de lições de moral reacionárias.

Uma das mais fortes tradições do cinema americano de mercado é adaptar clichês ao discurso individual de cada filme. Alguns diretores fazem isso bem, como James Cameron em “Avatar”, mas isso não é o caso de Reitman nesse “Amor sem Escalas”. O longa tenta descrever a crueldade e os mecanismos de aniquilação que o capitalismo de livre mercado produzem nas pessoas. Acompanhamos o executivo Ryan Bingham, personagem interpretado por George Clooney, cujo trabalho é demitir pessoas onde quer que seja chamado. Essa proposta dramática é muito interessante em sua essência: a terceirização da demissão em um universo em que o trabalho terceirizado é a tônica dominante. O lado impessoal e frio das relações de trabalho são os mesmos que marcam as relações individuais das pessoas. Até aí, o filme cumpre seu papel por meio de uma edição ágil de planos curtos e cortes secos que acentuam o lado automático, veloz e mecânico da vida do protagonista.

Os problemas começam quando o espectador percebe que está diante de mais um caso de exploração do óbvio. A obviedade das situações e das metáforas estão impregnadas na forma do longa, na maneira certinha de construção das cenas e de evolução da trama. Tudo é redundante e leva a desfechos previsíveis em que a mudança de atitude dos personagens já pode ser percebida como consequência dos clichês e da previsibilidade do roteiro. O moralismo toma conta das cenas e conduz todo o filme para um mar de lugares comuns piegas. Amor Sem Escalas é vítima da proposta superficial que a falta de coragem e o conformismo de Reitman reiteram.

O que mais funciona no filme é o carisma de George Clooney. Sua atuação dá texturas humanas ao seu personagem, que surge na tela bem mais frágil do que o habitual tipo cool que caracteriza Clooney. Ele consegue obter esse resultado sem abrir mão do charme e carrega o filme com desenvoltura. Essa qualidade de “Amor sem Fronteiras” não é suficiente para tornar o longa bom. Embora o argumento evite certas previsibilidades e tenha sacadas boas, como as fotos montadas com a irmã do protagonista e seu noivo, o todo do filme não consegue se livrar de ser contaminado por seus equívocos e suas banalidades levadas a sério.

Embora exista essa leve preocupação em concluir o filme sem cair no previsível, Amor Sem Escalas tem um final em que existe apenas a acomodação entre o conformismo e a possibilidade de superação moralista. Mais um longa em que esse conformismo e a moral conservadora acabam por dominar. O espectador acaba sempre, nesse tipo de cinema, sendo subestimado em seu senso crítico.

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