O MUNDO DE JACK E ROSE:


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Original: The Ballad of Jack and Rose
País: EUA
Direção: Rebecca Miller
Elenco: Daniel Day-Lewis, Camilla Belle, Catherine Keener, Ryan McDonald, Paul Dano, Jason Lee, Jena Malon, Beau Bridges, Susanna Thompson e Anna Mae Clinton.
Duração: 112
Estréia: 25/11/2005
Ano: 2005


Um outro mundo é possível?


Autor: Leonardo Mecchi

Nestes tempos de globalização, uma questão recorrente é a possibilidade de se viver segundo seus próprios princípios, à margem de uma homogeneização imposta mundialmente. Houve um tempo em que a resposta a essa questão era uma só: sim, é possível viver a utopia, aqui e agora. Eram os anos 60, vivia-se a política no dia-a-dia, experimentava-se uma liberdade sem precedentes, drogas eram usadas buscando-se a expansão da consciência e a integração com o outro e comunidades alternativas eram criadas, visando comprovar que era possível ao homem viver em harmonia consigo mesmo e com a natureza.

É numa dessas comunidades que encontramos Jack (interpretado por Daniel Day-Lewis) e sua filha Rose (Camille Belle), ao som do clássico “I Put a Spell on You”. Estamos em 1986 e os dois são os últimos sobreviventes dessa experiência – como Jack mesmo a define – e ainda vivem sob os mesmos preceitos que o levaram a fundar a comunidade, vinte anos antes, isolando-se de uma sociedade que recusa suas crenças. Os belíssimos cenários e a carinhosa câmera, em alguns momentos quase documental, nos mostram um espaço idílico, com pai e filha vivendo em perfeita comunhão.

Entretanto, esse pequeno paraíso fincado em uma ilha da costa leste americana está prestes a ser contaminado pelo “futuro”, representado neste caso por um empreendimento habitacional de casas pré-fabricadas (ou, nas palavras memoráveis do personagem de Day-Lewis, “lugares para manter a TV seca”). Jack, em seu espírito sessentista, é o que hoje se denominaria um “ambientalista”, e o fato do empreendimento estar sendo construído sobre uma reserva o colocará em pé de guerra com o empresário responsável pela construção.

Mas não é esse o foco do filme, e muito menos o real motivo da ira de Jack. O que está por trás disso tudo é a luta de um sonhador por manter suas crenças, apesar das desilusões e do sentimento de inadequação com seu tempo. Pois Jack é como Ahab (analogia ostensivamente explicitada com o livro de Melville na cabeceira do protagonista), em uma insana perseguição pela sua própria Moby Dick – a esperança de que um outro mundo é possível. Jack está doente, morrendo, e se vê obrigado a encarar suas escolhas e as conseqüências, além de lutar arduamente para manter-se fiel a seus ideais, à sua utopia. O conflito é interno, e não com o mundo exterior.

Tudo se torna ainda mais complexo quando Jack convida sua namorada, juntamente com os filhos, para morarem com ele, o que faz com que os sentimentos ambíguos que existem entre Jack e sua filha aflorem. Pois em sua ânsia de protegê-la (e a si mesmo) do contato com o Outro (“o homem é bom por natureza, é a sociedade quem o corrompe”, já nos dizia Rousseau), Jack acaba construindo uma armadilha onde a única possibilidade para a continuidade de sua utopia está na auto-suficiência de sua relação com a filha, sem moralismos e com todas as implicações que isso traz. Ao deparar-se preso a essa armadilha, Jack se angustia cada vez mais. Daniel Day-Lewis, em sua já conhecida e esperada entrega ao personagem, faz com que ele somatize em seu próprio corpo (o ator chegou a perder 20 quilos para o papel) essas angústias e a derrocada do sonho que pretendeu tornar realidade.

Infelizmente, trata-se de uma ótima história à procura de um diretor. Rebecca Miller (filha do grande dramaturgo Arthur Miller e esposa de Day-Lewis) não consegue neste seu terceiro longa-metragem dar fluidez à narrativa e dificulta a identificação do espectador com seus personagens, algo fundamental para que se possa aceitar suas contradições e angústias e acompanhá-los em suas trajetórias. Com isso, o filme nos mantém distantes durante a maior parte de sua duração, sem nos envolver, apesar das canções de Bob Dylan que permeiam o filme, da ótima cenografia (em especial as casas da comunidade e os floridos jardins) e de uma fotografia precisa.

Mas tal é a força da história que está sendo contada e do drama desses personagens que, apesar das limitações do filme – que não são poucas – as questões suscitadas nos acompanham após o término da projeção. Levando os personagens a situações e decisões extremas, o filme parece nos apontar (em uma cena pungente e tocante) para um final pessimista onde, parafraseando um delicado momento de nossa história recente, o medo vence a esperança, e nada nos resta a não ser capitular e desistir de nossos sonhos, pois o fardo a se carregar ao ser fiel a suas crenças e desejos é por demais pesado e não parece valer a pena. Entretanto, quase num prólogo, a diretora nos concede uma ponta de esperança, uma possibilidade ainda em aberto. Mas talvez já seja tarde. O gosto que fica é da inviabilidade da inocência (“pessoas inocentes são perigosas”, nos diz um dos personagens) e do fim da utopia.

Resta-nos o questionamento sobre nossas próprias escolhas e caminhos. É pouco para redimir o filme, mas é o bastante para nos fazer refletir.
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