Crítico:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Kleber Mendonça Filho.
Elenco: Documentário.
Duração: 75 min.
Estréia: 15/01/2010
Ano: 2007


Crítico e cineasta.


Autor: Cid Nader.

Esse documentário do cineasta Kleber Mendonça Filho é prova de amor ao cinema. Desde muito há tempo ele começou a entrevistar figuras ligadas ao cinema com a expectativa de, algum dia, transformar esse material em um documentário que discutisse a crítica (críticos e criticados). A cada festival que participava acionava suas câmeras portáteis e arquivava respostas a questionamentos sobre a função do crítico, sobre como os cineastas lidavam com isso, a importância do comentar obras alheias... Com o tempo ele começou a imaginar que todos esses dados ficariam arquivados, para rememorações caseiras, momentos de nada a fazer. Porém, sua mulher Emilie Lesclaux resolveu atiçá-lo, provocá-lo, e fez com que ele passasse a pensar na manipulação do material com uma certa organicidade de proposta, já que ela era uma fã fervorosa de um programa francês que enchia um auditório na Maison de la Radio, e sentia o potencial que tinha em mãos.

Kleber é crítico e cineasta compulsivo. Está sempre trabalhando na confecção de novo filmes, e imagino impossível um abandono seu de material tão farto importante. A qualquer momento a obra sairia. E saiu – com incentivo, melhor! O filme é muito mais importante do que uma primeira impressão pode deixar para pessoas mais afoitas. Kleber impôs um ritmo todo seu nos momento da edição. O filme é nitidamente um trabalho seu – e digo isso pela postura dele no modo de falar, de expor opiniões, pela velocidade calma obtida nos depoimentos (muito na mesa de edição), pelo modo de enquadramento corretíssimo, e pelas inserções de trechos de filmes de diversas origens (publicitários, oficiais, experimentais) como elementos "aliviadores" entre a catarata de comentários contínuos.

Falando do que a princípio deveria ser o principal atrativo de um documentário desses, as opiniões emitidas por cineastas e críticos formam um emaranhado bastante interessante e revelador do que seria a crítica. Não há ninguém mais contundente, ou impositivo, ou definitivo, e isso eleva bastante o significado do trabalho. Ele ganha muito em importância por essa opção da "democratização" das falas, do não cerceamento (inimaginável uma atitude desse calibre partindo do diretor), do respeito extremo a todos os entrevistados – mesmo quando, nitidamente, não seriam de opiniões similares ás suas. A outra importância inquestionável é que resulta um pensamento definitivo da função do crítico (e isso não vem mastigado, mas será resultado da observação atenta que o público deverá lançar a cada fala). O painel se fecha (num sentido metafórico, não como juízo definitivo da questão) justamente por conta de termos a chance de ouvir diversos lados, diversas verdades. E não adianta batermos o pé firme contra uns e a favor de outros, porque aí o trabalho poderia não ter sentido e razão de existir.

Creio que nunca tive a oportunidade de ver algo tão diverso e direto falando dessa função vista por alguns como maldita, como carniceira. Seria ruim se a idéia tivesse surgido na cabeça de alguém menos centrado, ou mais espalhafatoso, ou com menos domínio da técnica e da linguagem.

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