Onde Vivem os Monstros:


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Original: Where the Wild Things Are
País: EUA
Direção: Spike Jonze.
Elenco: Paul Dano, Forest Whitaker, Catherine Keener e James Gandolfini.
Duração: 101 min.
Estréia: 15/01/2010
Ano: 2009


Uma fábula sobre a infância.


Autor: Gabriel Carneiro

Não se precisa ver o filme para entender sua mensagem. Os monstros estão dentro de nós, todos os temos, e é isso que nos torna complexos. Certamente é algo batido, assim como a questão da jornada da maturidade – visto já em excelentes animações, como “Alice no País das Maravilhas” e “A Viagem de Chihiro”, e, ainda, mais recentemente, no mediano “Coraline e o Mundo Secreto”. E é justamente por isso, pela fábula, que o longa de Spike Jonze deve conquistar o público infanto-juvenil. Mas pensar o filme apenas nesses aspectos parece reducionista; há mais nele.

Onde Vivem os Monstros é a história de Max, um garoto sem amigos, que fica a imaginar seu mundo, fantasiado de lobo, até que um dia, após morder sua mãe num acesso de birra, foge, indo morar numa ilha de monstros: e lá, torna-se rei.

Há uma oposição clara entre o mundo real e o mundo dos monstros: enquanto é solitário e submetido a um monte de regras no real, tem amigos e passa o tempo todo fazendo o que bem entende no dos monstros. A preferência pelo mundo fantástico é bem clara, sua primeira ordem como rei é fazer bagunça, e só isso fazem – correm, sujam-se na terra, gritam, destroem o que está no meio do caminho. Só que, claro, há mais do que a balbúrdia, são seres dotados de emoção, que se ressentem e que sentem falta um do outro, que lidam da mesma forma que Max com as mudanças. Toda a metáfora é bem evidente, mas o grande trunfo do filme é como sintetiza o que é ser criança, através de máscaras, cada qual à sua imperfeição – seus monstros.

Nisso, os personagens parecem ser fundamentais. Pouco importa como se travestem – assim como Max, uma roupa os determina naquele mundo distante e fantástico -, seja como cabra, pássaro, ou algo que não se pareça com nada que conheçamos. Cada qual, com sua personalidade, é uma máscara, uma camada, um espectro do que é aquele jovem. Talvez por isso agrade também adultos, nos refletimos nos personagens, entendemos, muito possivelmente, certos traços, como a introspecção, a timidez, a sensação de não ser ouvido. São personagens-tipos, mas que reforçam a multiplicidade de características, como se Max (ou nós) fosse o conjunto de diferentes monstros, com seus altos e baixos.

Para criar esse incrível mundo, baseado no livro de Maurice Sendak, Spike Jonze inspirou-se no mundo fantástico, do sonho. Os monstros não primam pelo realismo, e isso é parte da graça. A fotografia em scope exibe belos cenários, paradisíacos. A trilha sonora de Karen O. e Carter Burwell referenda a atmosfera. Constrói-se um forte, com o objetivo de manter todos unidos, dormindo sob o mesmo teto, que nada mais é do que uma esfera oca, com um buraco no meio. Para manter a fábula, o mundo de delírios, constrói-se o forte, mas não sabemos como – há trabalho, mas qual, o que fazem exatamente? As peças parecem simplesmente se juntar, com uma praticidade que pouco importa à mente infantil. O que fazem é criar um mundo à parte – o forte, aí, parece tomar para si características essenciais ao filme, porque sua manutenção é a manutenção do mundo fantástico, é a permanência da ilusão, de uma ambiência que tanto lhe agrada.

E enquanto existe o forte, existe a infância, com toda sua ingenuidade e sua crença, coisa que o passar dos anos parece quebrar – e o colapso e a desilusão parecem inevitáveis. Talvez por isso, na memória, o filme cresça tanto. Onde os Vivem os Monstros parece justamente aquilo que ficou para trás: nas lembranças, apenas o que há de positivo e adorável.

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