Não Minha Filha, Você Não Irá Dançar:


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Original: Non ma Fille, Tu n´iras pas Danser
País: França
Direção: Cristophe Honoré.
Elenco: Chiara Mastroianni, Marina Foïs, Marie-Christine Barrault, Louis Garrel, Jean-Marc Barr, Fred Ulysse.
Duração: 105 min.
Estréia: 15/01/2010
Ano: 2008


Honoré em andamento.


Autor: Cid Nader

Cristophe Honoré – o rei das novidades recentes dentro do mundo que é o cinema francês – parece ter amadurecido um milhão de anos entre suas últimas produções e este seco e duro Não, Minha Filha, Você Não Irá Dançar. Não que seus filmes anteriores (principalmente “Canções de Amor”, “Em Paris” e “A Bela Junie') não fossem um primor de detalhamento das almas humanas que por eles circularam; não que ele tenha tratado qualquer personagem que seja com um mínimo de atenção na sua composição; não que ele não tenha sido seco e duro o suficiente quando muitos de seus tipos explanaram suas angústias dentro dessas obras. Acontece que, além da inovação estética de “musicar” esses trabalhos que citei anteriores ao último filme como maneira inédita e quase inovadora de rompimento das linearidades narrativas para, no contra-pulo, resgatar definitivamente o espectador em redes de fina e delicada linha - por novos e sedutores rumos -, ele sempre dedicou atenção detalhada às figuras que imaginou, sempre dedicando espaço bastante “democrático” para que cada uma merecesse um bom quinhão da quantidade de ilme rodado.

Era um fato a ser louvado essa atenção e cuidado dedicado aos personagens, tanto quanto naqueles momentos parecia sempre terem sido delineados o suficiente dentro da possibilidade do tempo da composição dos filmes. Mas, enquanto Não, Minha Filha, Você Não Irá Dançar transcorria lenta e pesadamente solene na tela, todo esse cuidado anterior dedicado a mil pessoas passaram a ser “engolidos” pela nova ideia de atenção quase única a uma figura que parecia merecer mesmo atenção máxima: no caso Léna (por interpretação inimaginavelmente densa e correta de Chiara Mastroianni – uma parceira constante de Honoré em seus últimos trabalhos, como tantos outros atores, com destaque inequívoco a Louis Garrel)), uma mãe, filha, divorciada, tia, figura humana que aparece no filme como um ser, já bem adulto, que não conseguiu fincar os pés ainda no chão da sociedade e suas imposições, com seus padrões e suas exigências. Não que ela apareceu como um ser absolutamente excluído, isolado ou abandonado pela instituição família – que, aliás, é acima da média do que se vê e se tem por aí. Não. Mas é um daqueles seres que se interiorizam de tal maneira, se fecham em casulo tão hermeticamente, que, somente os atos mais visíveis e comuns não acabam não sendo suficientes para correção de rumos ou rotas – e ela caminha, durante todo o filme, em seus rumos e rotas, fortemente para a colisão, para o colapso.

Honoré não deixou de dar atenção aos tipos satélites a Chiara, no filme: todos têm suas especifidades extremamente bem desenhadas, bem trabalhadas, bem realizadas, e com espaço para se apresentarem. Acontece que a vez, o momento imaginado pelo diretor, uma, talvez, guinada, estava mais específico em favor de observar alguém em especial, fazendo com a que diluição dos momentos tenha sido contida em favor do espaço necessário para que se tratasse mais atentamente desse alguém. Para tal, também, foi obstruída a descontinuidade que o enxerto das músicas causava nos outros trabalhos – se bem que em “A Bela Junie” já tenha acontecido uma certa contenção -, deixando com que bela trilha desse (bela e presente, mas paralelamente) marcasse os eventos de modo muito mais pontual, enquanto contribuía para o crescimento das tensões interiores que afloravam, fazendo perceber do queria tratar a história.

Não há como fugir do filme enquanto se está na sala de cinema; não há como deixar de sofrer com a pressão que ele executa no nosso ânimo. Léna vai adensando suas neuroses, seus problemas, suas introspecções, e todos em seu entorno vão sendo engolidos – nós inclusive. Cada um reage à sua maneira, mas é evidente que sua força não deixará que seus satélites escapem, simplesmente. Honoré, na realidade, foi à tradição do cinema de seu país que adora discutir na tela os problemas de suas pessoas – vulgarmente poderíamos dizer que adoram procurar pelos em ovos. Mas vai também ao encontro do bom cinema que sabe fazer isso por lá: normalmente confiáveis são os diretores mais antigos e os filmes mais antigos, já que em tempos do final do século XX um amontoado de produções locais encheram as telas com falação cansativa, sem nenhum tipo de retorno humano, muito menos retorno de benefícios à arte. Honoré resgatou uma tradição de seu país, muito mal desenvolvida na maioria das vezes, mostrando o quanto pode ser bem feita uma obra que vá ao âmago angustiado do ser humano. Não sei se há um novo diretor surgindo – sempre lembrando que sou dos fãs incondicionais de sua carreira até aqui -, mas sei que o modo como tratou Léna e os seus, o modo como tratou as tensões, o modo como encadeou e deu ritmo à narrativa lenta, são sinais de que ele conhece muito do assunto, e pode transitar por tentativas mais ousadas ou por "aparente" conformismo técnico/estético.

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