O Homem que Engarrafava Nuvens:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Lírio Ferreira.
Elenco: Documentário.
Duração: 106 min.
Estréia: 15/01/2010
Ano: 2008


Um grande Lírio para resgatar um grande Humberto.


Autor: Cid Nader

Lembro de ter citado no último trabalho de Lírio Ferreira algo como um certo regresso em sua carreira, quando comparava os últimos trabalhos ao seu belo e marcante – no momento,vento renovador – “Baile Perfumado” (1997). Lembro de não ter gostado muito das opções escolhidas para confeccionar o documentário “Cartola – Música Para os Olhos” (2006), uma pessoa de amplas possibilidades a serem exploradas (documentação depoimentos e, sobretudo, a sua fluência musical de apego a variadas maneiras de entender a beleza), mas que obteve um filme pouco inspirado para sua grandeza (minha opinião, de modo bem diverso à maior parte da crítica).

Pois bem. Ao optar por falar da figura de Humberto Teixeira – músico, poeta, compositor de sucessos que ganharam muita potência e reconhecimento na figura iconográfica de Luiz Gonzaga -, o diretor fez um apanhado bastante amplo e dedicado (nas referências buscadas, nas explicações obtidas, nos discursos proferidos, nos depoimentos): coisa que me pareceu faltar no trabalho anterior. O modo como Lírio vai desvendando a figura não tão facilmente reconhecível de Teixeira é quase didática, sem fazer com que isso possa parecer acomodação. Ele trabalha com registros históricos, alternando-os com depoimentos “técnicos” e outros de profundo viés sentimental. Faz uma miscelânea calculada para tal, criando um crescendo de importância histórica do personagem dentro de nossa música (situando-o num momento histórico de nossa cultura tal, que acabaria por criar raízes profundas, inquebráveis e férteis para o futuro), e evidenciando as suas origens e seus anseios sentimentais.

Vai-se criando admiração pela figura genial de Humberto Teixeira, recitada por milhares de bocas famosas; vai-se alternando sucessos por interpretações das mais variadas, sempre reverentes; recuperam-se arquivos com o rei do Baião (Luiz Gonzaga) e vai-se para fora do país para notar sua importância (inclusive com detalhamento de imitações e surrupio de músicas por parte de outros). Todo esse momento emblemático, de “apresentação e reconhecimento”, constitui um bom quinhão do trabalho, sem deixar de lado intervenções onde sua filha mais famosa, Denise Dummont, fala dele e de sua relação com ele.

Mas documentários ganham muita força quando rompem com um modelo de discurso através de um depoimento surpreendente, ou de um achado bombástico. Quando as câmeras acompanham Denise a Nova Iorque e captam um desabafo de sua mãe sobre o comportamento de Humberto, e sobre situações relativas à separação de ambos, além de um balde água fria momentâneo ser despejado no espectador, um ouro braço se abre, e o clima de auto-análise, de compreensão verdadeira entre filha e pai, passa a ser escancarado. Por conta disso, o filme estica um pouco a mais da conta exata, e um acerta sensação de final ideal não encontrado passa a tomar a vez. È um incômodo que talvez pudesse ter sido superado com um pouco mais de “sisudez” no momento da edição: algumas cenas de artistas cantando e falando do Teixeira ganham ar de repetição. A opção de Lírio foi a de deixar tantas informações quanto as que deixou, como modo, talvez, de não concluir seu filme com a imagem do documentado maculada demais pelas complicações/implicações caseiras/sentimentais.

Se essa foi a razão para tal indefinição na hora de fechar, creio ter sido desnecessária: é evidente que num trabalho de tanto apego e desvendamentos, a figura humana foi discutida e esmiuçada, de maneira a não parecer razoável condenações por parte do público a alguém que errou (se errou) nas questões mais humanas possíveis (que são as dos laços). De todo modo, um pouco esticado a mais, ou não, Lírio fez um belo trabalho, emocionante, competente ao extremo no quesito técnica (há momentos em que a câmera atua belamente: quando busca Chico Buarque no porão, ou quando acompanha David Byrne em sua bicicleta, por exemplo); há a utilização bastante digna de imagens de arquivos e a boa emenda delas com a “realidade”; há boas soluções de continuidade e dinâmica. Um Lírio voltando à boa forma, nessa sua nova vida dentro do mundo dos documentários?

P.S.: vale lembrar que a fotografia é de Walter Carvalho.

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