Caro Francis:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Nelson Hoineff.
Elenco: Documentário.
Duração: 90 min.
Estréia: 08/01/2010
Ano: 2009


Quem matou Paulo Francis?


Autor: Cesar Zamberlan

Ainda não vi o documentário anterior de Nelson Hoineff, “Alô, alô Terezinha”, que ganhou o Cine PE de 2008 e é taxado por vários críticos confiáveis como um verdadeiro show de horrores ao expor as chacretes do velho guerreiro a humilhações. Caro Francis é bem convencional na sua estrutura e mais sério, óbvio.

Hoineff, ao apresentar o filme na sessão do Festival de Paulínia, deixou clara a intenção de escrever uma espécie de carta com imagens ao amigo, uma espécie de tributo. Essa postura do documentarista com o objeto do seu documentário acaba no filme impedindo um confrontamento maior com a polêmica figura do jornalista. Os depoimentos acabam sendo de companheiros de Francis, a turminha, e tudo fica numa espécie de roda de amigos com revelações ora mais humoradas, ora mais emocionadas. Estão no filme: Ruy Castro, Boris Casoy, Lucas Mendes, Nelson Motta, Hélio Costa, Matinas Suzuki, Sérgio Augusto, Ziraldo, José Serra, Fernando Henrique Cardoso, Daniel Piza, Wagner Carelli, Luiz Scwarcz, Diogo Mainardi, entre outros.

O filme é todo articulado a partir da colagem dessas entrevistas com alguns dos citados acima em temas bem delimitados, muitas vezes separados por um respiro no qual uma música se sobrepõe a uma foto de Francis. No primeiro bloco, por assim dizer, temos a mudança de posição política de Francis, do trotskismo para uma postura bem mais à direita. Escolha bastante sintomática para mostrar a visão do filme e da escolha dos entrevistados. Em seguida, passa-se ao Paulo Francis critico de teatro e cultura; para depois falar da personalidade polêmica do colunista, sua linha de trabalho opinativa e atuação no Pasquim; entrando depois na sua saída da Folha e entrada no Estadão, após a “briga” com o ombudsman Caio Túlio Costa e por aí vai.

Ao documentar o episódio da saída de Francis da Folha, Hoineff entrevista Caio Túlio e faz na edição um pingue-pongue entre ele e Diogo Mainardi, por exemplo. Mas, fica clara, na montagem, a falta de isenção do diretor que privilegia no timing do corte a acidez sórdida de Mainardi, que se julga, como Daniel Piza, um herdeiro do “legado” de Francis. Outro episódio do filme que merece uma citação é aquele no qual Hoineff documenta o carinho de Francis e sua esposa com os gatos, sobretudo, com a siamesa Elvira. O “bloco”, digamos assim, ainda que não seja formalmente divido por lettering, acaba se tornando excessivo no tempo e na dramaticidade, resvalando na pieguice e expondo demais a esposa de Francis, Sonia Nolasco, que lê uma carta, dirigida a Hoineff, na qual ela comenta a morte eminente da gata querida. É o momento “Marley e Eu” do filme. Outro momento estranho, para dizer o mínimo, é um plano de um depoimento de Sérgio Augusto no qual um cachorro do jornalista está deitado de cabeça para baixo no sofá, parecendo morto. O enquadramento é tão bizarro que ninguém presta a atenção no depoimento, só no cachorro que está no canto da tela.

A favor do filme de Hoineff, as imagens de arquivo com Francis fazendo todas as suas estripulias: cantando, xingando Deus e o mundo no ar e fora do ar, imagens do finado - sim finado, programa Manhattan Conection - , que são extremamente engraçadas, pois Francis era uma figura, acima de tudo, engraçada no seu destempero e na sua coragem, até irresponsável: de emitir opiniões bombardeando quem quer que fosse. A platéia riu muito das opiniões de Francis e isso ajuda o documentário a fluir, ainda que seja careta na sua colagem de depoimentos. Mas fica no ar uma falta de isenção, uma imposição de uma leitura sobre Francis que incomoda. Tal fato é acentuado ao final do filme quando temos o momento, “quem matou Paulo Francis?”. Petrobrás, Lucas Mendes, o médico Jesus Cheda?

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