Sherlock Holmes:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: RU/Austrália/EUA
Direção: Guy Ritchie.
Elenco: Robert Downey Jr., Jude Law, Rachel McAdams.
Duração: 128 min.
Estréia: 08/01/2010
Ano: 2009


Dúvidas...


Autor: Cid Nader

Uma das grandes sacadas da indústria do cinema de uns bons muitos anos pra cá tem sido recriar na telona figuras que já haviam se embrenhado, absolutamente impressas, em nosso imaginário, a ponto de terem o poder da representação de ícones inquestionáveis. Tem sido assim mesmo quando não se mexe na imagem icônica do refilmado da hora, e sim na imagem essencial, da conjunção entre o âmago, intelecto, ordenação de ideias, crenças, ideais – isso se nota mais especificamente no caso de refilmagens de personagens de histórias em quadrinhos, de difícil remanejamento pictórico, mas oriundos de embriões que foram sendo deformados com o passar do tempo. Sherlock Holmes, de Guy Ritchie, é um mistério “nesses sentidos”, já que é modificado substancialmente em todos os quesitos pelo qual se possa tentar intrometê-lo, até então: mexido na figura física, no modo de atuação (que não despreza de modo algum sua esperteza e raciocínio dedutivo – ao contrário, parece privilegiá-lo mais ainda -, mas que introduz um acompanhamento dinâmico ao personagem , digamos, tal, que parece por diversos instantes estarmos diante do maior lutador de todos os tempos), no comportamento ante a sociedade (nada recomendável - com histórico de bebedeiras e outras cositas mais) ...

Um outro “desses sentidos do mistério” recai na figura emblemática e quase subserviente do Dr. Watson de nossas entranhas. Aqui, representado por Jude Law – valendo lembrar que Holmes foi imaginado para a interpretação, sem dúvida, singular de Robert Downey Jr) – ele também se torna alguém desconhecido às nossas recordações comuns, bastante beneficiado pelo dom da postura física agressiva, sempre pronto para uma boa luta, muito mais irreverente e questionador ao “chefe” do que o comum nos traz à lembrança.

O que significa isso quando se constata o resultado do filme? Num primeiro instante, fica a sensação incomodante do estranhamento, do desmoronamento do mito (ícone) constituído, e o questionamento que aflora é: “até quando vão ficar mexendo em nossas certezas lúdicas (sim, porque quase sempre, essas figuras “revisitadas” e “remontadas” pelas lentes atuais constituem aquele setor do cérebro responsável pela lembranças adquiridas em momentos de lazer e prazer, que costuma derivar ao lúdico nossas necessidades mais rígidas) dessa maneira, sem dó nem piedade”? Constata-se que mesmo diante de um trabalho tremendamente bem realizado e interpretado o incômodo do cérebro remexido é algo a ser considerado e tratado. Como?

Vai-se às origens do personagem, vai-se a Conan Doyle (Sir Arthur Conan Doyle, criador do personagem e autor dos inúmeros livros com suas aventuras, em uma Londres que também se impregnou - sombria, cinza, fria, enevoada... - de forma única nas mentes de quem as leu) e pesquisa-se com olhos adultos, e mente mais sagaz, se o que havíamos retido de Holmes e Watson não era fruto mais de idealização nossa (bastante ajudada pelo cinema que transferiu dos livros para a película a história, até então) do que da criação real do próprio autor. Descobre-se que há um misto de tudo, mas com propensão muito mais próxima do retratado por Ritchie do que pelo retido por nós (por mim, pelo menos). E? A partir da certeza de que não foi tão agredida a figura, e de que o filme se encaixa na vertente quase úncia desses trabalhos recentes de recriação – que buscam maior proximidade com a verdade original -, qual a impressão que resta, já mais tardia e elaborada, do obtido?

Resta a certeza (essa inicial) de que um filme ágil e tremendamente bem elaborado nos modos de decupagem e na edição foi feito, por esse autor autêntico e longe de ser unanimidade ou constante na qualidade. Guy Ritchie sempre foi ligando em "tentar cinema", não somente no "executar função cinema". Nem sempre seus resultados podem ser considerados dignos de pertencer à "antologia tentativas no cinema". Atípico, sim; veloz, sim; engraçadinho, sim; cheio de truques e vícios repetidos, sim mesmo. Emprestou a alguns de seus trabalhos carga negativa de aceitação, mesmo por quem se interessa mais pelo cinema tentado. Sofreu por isso, foi alcunhado e ganhou pecha. Algumas vezes acertou, e talvez nessa sua mais recente tentativa devesse receber mais elogios do que desconfiança. Boas cenas de luta precedidas de "explicações coreografadas"; boas soluções e conclusões através de um desenho mental do detetive lógico e sem furos; belas atuações extraídas e coragem nos encadeamentos; bela e justa (já que buscou um todo próximo da "realidade") recriação de uma Londres complexa e perigosa; bons antagonismos entre Scotland Yard e o detetive. Enfim, um filme de Guy Ritchie que deu certo: no que propõe à maneira de conduzir sua obra, o diretor.

Mas um filme de Guy Ritchie... Que, talvez tenha usado um disfarce para tirar a carga pesada que carrega por tentar, tentar e muito errar: disfarce que é trazer à tona um Sherlock Holmes "real". Desvia a atenção demais e quem vê, se o quer, não se chega a conclusões mais decididas. Para quem não tem a figura do detetive como parte da memória e está em busca de filme com direção veloz e "ousada", pode ser uma pedida melhor adequada. Dúvidas.

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