FLORES PARTIDAS:


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Original: Broken Flowers
País: EUA
Direção: Jim Jarmusch
Elenco: Bill Murray, Julie Delpy, Heather Simms, Brea Frazier, Mark Webber, Jeffrey Wright, Alexis Dziena, Sharon Stone, Frances Conroy, Christopher McDonald, Chloë Sevigny, Jessica Lange e Chris Bauer.
Duração: 106
Estréia: 25/11/2005
Ano: 2005


A arte das pequenas coisas


Autor: Leonardo Mecchi

Há motivos de sobra para se comemorar e se preocupar com “Flores Partidas”, vencedor do Grande Prêmio do Júri no último Festival de Cannes. Há de se celebrar o fato de Jim Jarmusch, um dos papas do cinema independente norte-americano, voltar em plena forma ao longa metragem, seis anos após “Ghost Dog”. E também o prazer de acompanhar mais uma interpretação impagável de Bill Murray, que se afirma a cada filme como um dos melhores comediantes da atualidade. Entretanto, o que deixa um gosto agridoce a essa deliciosa iguaria é a sensação de que tanto Jarmusch quanto Murray estejam se acomodando em um estilo que lhes consagrou, sem buscarem inovações ou evoluções dentro de suas respectivas filmografias.

Como em seu filme anterior, o ótimo “A Vida Marinha com Steve Zissou”, Bill Murray interpreta um cinqüentão que se encontra com a vida estagnada quando descobre a existência de um suposto filho, tendo então que aprender a lidar com essa situação inesperada. Em “Flores Partidas”, a notícia vem através de uma carta anônima que o levará a procurar suas antigas namoradas e possíveis mães desse hipotético filho, sendo praticamente coagido a isso por seu vizinho e amigo Winston, que nos intervalos entre seus três empregos e o cuidado com seus cinco filhos arranja tempo para bancar o detetive na Internet.

Jarmusch cria então uma narrativa cíclica de esquetes e interações que se repetem, um road movie onde praticamente não há movimento, no qual Don Johnston (o personagem interpretado por Murray, cujo nome gera uma série de brincadeiras ao longo do filme devido à semelhança com o do protagonista da série “Miami Vice”) parte em sua jornada – que é mais uma busca por alguma ligação com o mundo ao seu redor que o tire da inércia e que o traga de volta à vida do que uma real procura pelo filho desconhecido.

O ponto forte do filme é sem dúvida a interpretação de Bill Murray, acompanhado de um rol de atrizes como nunca se viu num filme de Jarmusch (Sharon Stone, Frances Conroy, Jessica Lange, Tina Swinton e Chloë Sevigny). Não podia ser diferente, tendo em vista que Jarmusch escreveu o roteiro do filme tendo desde o começo Murray em mente para o papel principal. Embora não tenha atingido a genialidade de um Bob Harris, personagem que interpretou em “Encontros e Desencontros” com seu ar blasé e uma perfeita tradução do sentimento de inadequação com o mundo e seus habitantes, Murray continua capaz de construir, com uma atuação que se restringe a olhares e leves variações de expressão, pequenos momentos hilários que valem todo um filme. Já foi assim em “A Vida Marinha com Steve Zissou” (em especial a cena em que ouve walkman vestido com a roupa de mergulho) e continua neste “Flores Partidas”, nos encontros com suas ex-namoradas (particularmente na cena do jantar na casa da ex-hippie que virou corretora imobiliária).

Já Jarmusch impõe seu estilo pessoal de reiterações e mantém acertadamente o tom do filme um nível abaixo da comédia tradicional, em sintonia com a interpretação contida de Murray. O diretor escapa do clichê que seria mostrar a vida de cada uma das ex-namoradas de Don Johnston como possíveis caminhos para a vida dele caso tivesse feito escolhas diferentes, optando ao invés disso por ressaltar, com bom humor, o mal-estar e a incapacidade de identificação do personagem principal com aqueles que fazem ou fizeram parte de sua vida.

Ao final, fica claro que o filho de Johnston é apenas um McGuffin (termo cunhado por Hitchcock para designar um plot que coloca o enredo em movimento mas que tem pouca ou nenhuma importância para a história propriamente dita) e que o objetivo principal do filme é a jornada do personagem e seu retrato do vazio existencial de nossos dias, deixando o belo final em aberto, pronto para ser preenchido pelas experiências e expectativas do espectador.
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