Hanami – Cerejeiras em Flor:


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Original: Kirschblüten – Hanami
País: Alemanha
Direção: Doris Dörrie
Elenco: Elmar Wepper, Hannelore Elsner, Aya Irizuki.
Duração: 126 min.
Estréia: 25/12/2009
Ano: 2008


Saudades do bom cinema alemão.


Autor: Cid Nader

Não é lá muito bom esse filme germânico - fato quase usual e irrefutável hoje em dia quando se fala de cinema alemão. Principalmente na parte inicial - cerca de 70% do filme: a passada na Alemanha - o que se vê na tela é uma série de atentados ao bom desenvolvimento cinematográfico. A narrativa é capenga e pesada, bastante comprometida por atuações ruins, por desenvolvimento incompleto dos personagens que aprecem saídos de uma cartilha (tenho falado muito em cartilhas ultimamente, mas é que anda se fazendo muito cinema padrão demais por aí) que estipula as mais recorrentes maneiras de atuações baseadas em clichês dos piores: o pai, Rudi (que sofre sem saber de uma doença terminal - quem sabe é somente sua esposa, fato que acarretará todo o mote inicial da película) é daquelas figuras meio atrapalhadas no início da velhice, mas que tenta carregar nessa sua nova formulação (a do instante em que ele existe no filme) todo o peso que incutiu nos filhos durante os momentos de criação e educação (ausência, pensar somente no trabalho, exigir coisinhas, impor gosto culinário): de pesado resta mesmo uma atuação que remete o espectador á claustrofobia. A mãe, Trudi, sabedora da doença, tenta levá-lo a aproveitar o que lhe restaria de vida em visitas aos filhos, em tentativa de ida ao Japão (onde mora um outro filho), para que possam aproveitar sua maior alegria da vida (vida da mãe) que é o teatro butô: seu personagem talvez seja o mais bem desenvolvido, mas situações muito "berlinescas demais" (quando viajam do interior para visitar os filhos que moram em Berlim) enfraquecem momentos que poderiam ser mais bem concretizados (momentos que falam da aproximação, da redescoberta, mas são "pitorescados").

Ainda no quesito atuações ruins, as dos filhos são sofríveis, deixando os traumas de infância resvalarem fortemente ainda (fato que se bem explorado rende boa arte) nos pais (principalmente no pai), e de maneira tão amadora e canhestra que qualquer situação de envolvimento da platéia somente deveria ser a de dó do cinema. A tal narrativa capenga, afunda quando tenta se amparar num roteiro extenso e despropositado, que não consegue nuances de tema, que se abastece de literatura "padrão novela ruim", e que ajuda em vários momentos no clima claustrofóbico lançado pela atuação de Rudi. Complicando a fluidez a utilização da câmera nervosa (na mão) chega a ser pintinho diante da falta de capacidade de algum bom take sequer: o filme é todo muito mal fotografado, com sensível falta de capacidade de enquadramentos razoáveis (o que consegue, inclusive, o comprometimento das cenas das cerejeiras em flor que deveriam emoldurar a parte japonesa do filme), com nítida sensação de as tomadas foram decididas no momento em que eram feitas (e isso por alguém que realmente não entende muito do riscado), e como reforço à má fase do cinema das bandas de lá - dá desespero ver a arte da fotografia, num veículo que necessita demais dela, ser tão mal executada.

O restante (o equivalente a 30%) que deixei como possibilidade de salvação da película é quando o filme se desloca para o Japão. Nem é tão boa mesmo, mas se diferencia bastante de todo o horror inicial pelo evidente apreço que a diretora Doris Dörrle demonstra pelas coisas nipônicas. Consegue "entender' um pouco de lá, e principalmente, consegue alguns bons momentos surgidos pelo respeito que demonstra - quando não intervém demais, deixando as situações locais comporem os momentos como que por aceitação de sua beleza natural. Mesmo assim carrega demais na mão estendendo o momento do descobrimento entre Rudi e uma jovem "dançarina" de Butô - apesar de gerar a mais bela imagem do trabalho justamente num instante em que os dois estão juntos (a imagem do Monte Fuji à madrugada é bela - seria por si só). Agora, o que piora demais tudo, é a evidente homenagem que a diretora imaginou estar prestando a Ozu e a seu primoroso "Era Uma Vez em Tóquio" - a história dos filhos que não recebem os pais, o retiro numa pousada, a ida ao Japão. Ozu viraria no túmulo. Enquanto isso, eu me irrito e me indigno por ele enquanto estou por aqui.

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