Sempre ao Seu Lado:


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Original: Hachiko: A Dog's Story
País: EUA
Direção: Lasse Hallström
Elenco: Richard Gere, Sarah Roemer. Joan Allen.
Duração: 88 min.
Estréia: 25/12/2009
Ano: 2009


Digno


Autor: Cid Nader

Um dos grandes segmentos do cinema é aquele que busca na lágrima, na emoção incontida, no desvencilhar das armaduras do dia--a-dia que permite o escancaramento e revela nossas fragilidades mundanas, seu público preferencial. O cinema - como todas as artes, criações humanas, afinal - é recanto especial para se encontrar obras que buscam na emoção incontida da raça um grande trunfo de realização, sendo o cinema de entretenimento, aquele que faz desse exercício algo de matiz idealizadamente rentável. Ganhar dinheiro às custas de sofrimento do espectador parece ser um mercado e tanto, e a grande indústria "idealizou" uma espécie de cartilha a ser seguida, com caminhos pré-traçados que interferem na possibilidade autoral, muito através de ferramentas e técnicas: que se repetem notadamente e com similaridade em todas essas produções fraternas no choro.

O diretor sueco, Lasse Hallstrom (em sua terra natal e na certidão, Lars Hallström), ficou conhecido mundialmente com sua produção de 1985, "Minha Vida de Cachorro", pela qual concorreu a diversas categorias do Oscar - levando de quebra prêmio da Associação de Críticos de Nova York -, e onde já exercitava esse estranho esporte que é o de arrancar lágrimas e soluços sem apertar, sem colocar a mão, nem sequer estar próximo ou olhando nos olhos de seus "oponentes". Desse filme, rodado ainda na Suécia - por conta do sucesso foi cooptado como diretor ideal para participar das hordas hollywoodianas dos que sabem arrancar tristeza extrema -, lembro com carinho e admiração: vi e revi algumas vezes, crendo que ainda gostaria e me emocionaria com sua honestidade, se o revisse em dias atuais. Olhos financistas imaginaram-no em sua terra, levaram-no, mas, junto com tal mudança geográfica, deu-se a mudança no artista.

Aquele que mudou sutilmente letras em seu nome, mudou mais escancaradamente no modo de confeccionar filmes, aceitando ditames, utilizando as tais ferramentas, seguindo as regras que normatizam o cinema da choradeira ao modelo do mercado, e nunca mais acertando um filme de forma a ser uma obra inquestionável. Um ou outro, se poderia dizer que resultaram razoáveis, mas a grande maioria, sinceramente, passo.

Pois bem: o mundo gira, e pior, nós, por vezes, nos vemos girando dentro dele soltos e sem resistência, aceitando cair em suas "armadilhas"; aceitando caminhos que, nos fundamentos, no âmago, representam o mesmo padrão de coisas que questionamos e não aceitamos anteriormente. Ver filmes que tentam a emoção a todo custo costuma criar um efeito contrário: costumo ficar com birra mais gratuita do que o normal, esquecendo de tentar ver possíveis virtudes - poucas que sejam – e ingressando num mundo de negativas e rejeição. Mas Lasse (Lars) parece ter um certo mecanismo astral funcionando em sintonia afinada quando entram cachorros (ao menos como designação no título do filme, que seja) em suas histórias. Por mais filme da indústria que seja, por mais regras das cartilhas que siga – ostensivamente, sabendo-se onde se instalarão as câmeras no momento do melhor ângulo afetuoso; sabendo-se que a expressão do ator alternar-se-á a um take contrário do cãozinho em questão, olhando com aqueles olhinhos suplicantes (adoráveis, confesso) típicos da infância do bichinho; sabendo-se que cargas de felicidade incontida provocada pela parceria tomarão conta do ambiente da sala de cinema por bons momentos, mas pressentindo-se que, ao final (talvez um tanto antes), algo trágico a essa felicidade deverá assomar ao ambiente; e coisinhas do jogo a mais -, Sempre ao Seu Lado carrega em si, em sua história, em seu drama, uma dignidade muito acima da média possível de se encontrar em outras produções da mesma escola.

Sempre ao Seu Lado é um filme digno, honesto. Melhor: traz à tona a velha e boa sensibilidade, mais o timing de construção narrativa (que caminha lenta e segura em busca de resultados que são muito justos ao cinema emocionante de boa qualidade) do diretor em seus tempos de surgimento na Suécia. Não que tenha toda aquela carga meio “nativa pura honesta” típica dos escandinavos dos anos 50 e 60 (ambiente de “Minha Vida de Cachorro) : tem cara de produção americana e se situa fortemente dentro de um berço familiar, típico do país. Mas tem clima perfeitamente ajustado ao que se contará, e certezas de impressões técnicas ao andamento que acabam por permitir um acúmulo de informações sensoriais que, somadas no seu tempo certo, trarão as lágrimas à face, indubitavelmente, em algum momento. Não vá tentar resistir: impossível.

Talvez por ser baseado num fato verdadeiro acontecido no Japão e que acabou virando quase uma história pátria, um conto de amizade, uma história mítica com ícones palpáveis e que respiram. Talvez por ter sido baseado no roteiro de Kaneto Shindô, que havia já transformado essa real história em cinema lá em 1987 (Hachiko: Monogatari ). Talvez pelo misto de tradições que aglutinaram “anteposições” do país do extremo-oriente à “nativa” Suécia e ao “familiar” Estados Unidos. Sei que os japoneses adoram a história que ocorreu por lá e vão visitar uma estátua (que se revelará ao final do filme) de homenagem que existe há décadas; sei que os suecos, apesar das modernidades e riquezas mantém algumas tradições de isolamento típica até os dias atuais; e percebi que Hallstrom ainda consegue transitar por meandros engessados pelas exigências da indústria – ou sabe driblar tais exigências com capacidade e respeito a rincões emocionais de povos, como o fez nesse emocionante trabalho.

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