Ervas Daninhas:


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Original: Les Herbes Folles
País: França
Direção: Alain Resnais
Elenco: Alain Resnais. Com Sabine Azéma, André Dussollier, Anne Consigny, Emmanuelle Devos, Mathieu Amalric.
Duração: 104 min.
Estréia: 25/12/2009
Ano: 2009


Quando o cinema é muito mais.


Autor: Fernando Oriente

Com Alain Resnais o cinema é algo muito maior. A profundidade que o cineasta atinge em todos os níveis e em todos os elementos que usa em seus filmes é o que faz desse cinema uma arte completa. Muito mais que um mestre, Renais é um dos poucos diretores da história que realmente podem ser considerados gênios. Após essa mais do que devida reverência, vamos ao seu último trabalho: Ervas Daninhas. O longa é de um frescor e de uma inventividade impressionantes. Resnais manuseia o cinismo e a acidez com uma passionalidade incomum em uma artista no auge de seus mais de 80 anos. O filme respira jovialidade em cada fotograma e leva o espectador ao deleite em um jogo de signos e significantes dos mais complexos e que, paradoxalmente, esconde-se dentro da aparente simplicidade e despretensão do argumento. “Ervas Daninhas” ilude aquele se aproxima dele com desatenção, é um filme que exige ser lido em todas as suas camadas e descoberto por traz de todo o jogo de imagens e luz que Resnais cria.

Alain Resnais aborda de frente seus personagens e os põe em uma cadeia de acontecimentos que têm no tom farsesco sua mais cruel arma crítica. É de dentro do universo artificial e alienante da realidade burguesa que o diretor vai cavar as relações interpessoais que representam a solidão e a carência afetiva na sociedade ocidental contemporânea. Os personagens centrais, Georges e Marguerite, são arquétipos do homem e da mulher que, após terem passado da metade de suas vidas e devido ao alto teor de anulação das ideologias no mundo burguês e ao comprometimento falso-involuntário à alienação do fetiche mercadológico, encontram-se totalmente amputados da possível interação com suas existências, são incapazes de transpirar seus sentimentos e desejos de forma clara. Suas vidas artificiais, cheias de cores vivas e apetrechos modernos, embebida de luxo desprovido de funcionalidade e embriagadas de asséptica frieza passional, é uma farsa patética em que os sentimentos já não mais afloram, de tanto que foram recalcados por perfumarias tolas.

É a partir de outros registros que Renais aborda o mundo em seu cinema recente. O que ele faz hoje é diferente das texturas quase palpáveis da angústia desolada e da dor existencial de obras-primas como “Muriel”, “La Guerre est Finie” e “Providence”. Em Ervas Daninhas vemos a recriação anti-naturalista do ambiente das ações. É na ilusão romanceada da luz super-exposta e dourada, das cores primárias fortes e do compasso suave do desvelar dos planos que está o sentido dos significantes do discurso de Resnais. É o acaso, as promessas da ilusão casual, que conduz a trama de “Ervas Daninhas”, que põe o casal de protagonistas em contato com uma nova possibilidade de ação, uma possível última chance de entrar em contato com emoções sinceras. O acaso é a vontade de Renais de jogar com seus tipos humanos, de quebrar as máscaras e derrubar os escudos de suas vidas ordinárias de burgueses satisfeitos. O diretor tem um carinho quase fraternal por seus personagens e quando introduz elementos de melancolia em seus destinos, logo produz encantamentos que devolvem o tom de fábula inacabada à suas vidas, mas sem nunca deixar de explicitar a real condição de seus tipos.

Resnais é  soberano do cinema e de seus meios. Em seus filmes vemos a culminância de cada elemento, de cada técnica. Os posicionamentos de câmera são sempre perfeitos, e quando a câmera se move, faz o percurso exato para revelar a visão única que seus planos desvendam. O ritmo dos takes é orquestrado por uma montagem em que a sucessão de situações desnuda o encantamento de uma obra que se revela e se abre aos mais distintos códigos de leitura. É uma aula de cinema que Renais oferece. Ele impõe atmosferas e contagia as cenas com climas densos que conduzem a misé-en-scene no caminho dos efeitos dramáticos precisos desenhados pelo autor. A decupagem é inventiva e retira um universo de possibilidades que se esconde em cada ação, em cada proposição cênica. O tempo em Resnais é múltiplo, sentimos o peso dos eventos, da vida anterior de cada um de seus personagens, suas ações se projetam no futuro em probabilidades distintas. Um mundo de emoções e sensações colide em cada instante presente, alongando-se no porvir. O espaço escorre para além da representação artificial dos cenários. Os atos, e as relações de seus personagens são exaltados nos efeitos de luz. Resnais aprofunda os ritmos, as sensações e os sentimentos de seus personagens, e faz isso utilizando-se da aparente falsidade das situações dramáticas. Ele compõe as tensões do quadro com a intenção de revelar as texturas que aparentemente se escondem em cada tipo, em cada ação. Resnais ilude o espectador com o anti-naturalismo e o excesso de artificialismo para buscar outra significação, uma verdade que se projeta no espectador e que não é comprovada, apenas sugerida.

O elenco de Ervas Daninhas é composto por atores que há anos trabalham com o diretor. São atuações incríveis que só podem ser atingidas quando existe uma cumplicidade quase cega entre um cineasta e seus atores. Eles entram no jogo de ilusões propostos por Renais e garantem uma complicação dissimulada aos tipos que criam. André Dussollier está soberbo como George e contracena com uma Marguerite que não poderia ser interpretada por mais ninguém que não fosse Sabine Azéma, mulher de Resnais e que com esse papel consolida de vez o tipo único que criou em parceria com o marido em seus mais recentes trabalhos. Para completar o time, existe ainda o brilho de Mathieu Almaric (talvez o mais talentoso ator de sua geração) e Emmanuelle Devos. Para se falar de Alain Resnais, de Ervas Daninhas e do cinema desse autor, só se agarrando aos superlativos. Cinema genial!

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