Confusões em Família:


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Original: City Island
País: EUA
Direção: Raymond De Felitta
Elenco: George Aloi, Sharon Angela, Alan Arkin, Vernon Campbell.
Duração: 100 min.
Estréia: 18/12/2009
Ano: 2009


Sem se assumir como trama comum.


Autor: Cid Nader

Esse modelo de filme americano, meio chegado às produções independentes, parece padecer demais desse vício e dessa “carga pretensa underground”. Como quase todo filme norte-americano que se preze – ao menos dentro daqueles que trafegam pelo que o imaginário comum imagina sempre, ou daqueles que fazem existir esse imaginário comum: os filmes do stablichment, das grandes produtoras, da indústria -, no fim, no fim, as coisas amainarão e a família sobressairá como "o algo inatacável", ou "o algo que sempre prevalecerá como ilha da salvação aos que desviaram da rota segura". Como alguns filmes novaiorquinos, Confusões em Família faz da cidade personagem importante no modo e nos caminhos narrativos – se bem que, nesse caso, com um diferencial geográfico ao comum que empresta qualidade visual nova, de onde não se imaginaria vinda.

Bem, no quesito “modelito independente”: os tipos que frequentam a trama são quase todos representativos do que não se imaginaria como os melhores exemplos do que preconiza o modo de vida e a sociedade local. São figuras, maluquinhas umas (o filho adolescente que tem tara por garotas gordas, por exemplo), de vida dupla (a filha, já jovem, que deveria estar frequentando as aulas na universidade mas tem uma vida em paralelo pouco recomendável para menores), ou ainda o tipo que vai parar na cadeia (e que, no fundo, percebe-se-á, fez coisas para tal, mas com intuito de se agredir, por conta da vida pregressa de filho em conflito com a mãe solteira e bêbada); citando, também, mãe (Emily Mortmer) da trama central se sentindo mal amada, e imaginando marido como traidor, a ponto de não evitar um rompimento na frágil estabilidade doméstica em troco de um pouco de carinho masculino, e o tal marido (Andy Garcia), um trabalhador frustado com o emprego formal (carcereiro), e que tenta a restauração espiritual e a salvação da sanidade, participando de aulas de interpretação (sem que o resto da família saiba, evidentemente). Uma família de origem italiana, com todos os tiques exagerados (de cartilha) evidenciados a cada frame, como modo de fazer da estranheza comportamental desejada algo fluido.

No que tange a não deixar que a esquisitice de seus seres rompa o ideal familiar ianque: o diretor Raymond de Felitta dá a entender o tempo todo que as tramas imaginadas como fios condutores da história jamais chegarão ao final embaralhadas definitivamente, ou rompidas – a ponto de por em risco, personagens ou o espectador. Para tanto, cria situações que vão ao inusitado e ao espanto típico dos que os novelões se utilizam, também. Isso é: mesmo acreditando em engenhosidade dele, mesmo que ele imaginasse a sério serem as construções dos elementos dramáticos algo de especial e acima do tom comum, jamais se perceberá durante o tempo da projeção que rompimentos e avanços em busca de outras faculdades instanciais se estabelecerão verdadeiramente. A coisa de pai que tem filho que não sabe disso, a solução encontrada para revelar o segredo ada filha (caixinha de fósforos: pois sim), ou a revelação em momento apropriado das razões reais para as escapadas desse pai, por exemplo, esquematicamente, entregam o significado verdadeiro das esquisitices amealhadas.

Agora, quanto à Nova Iorque escolhida, novamente retratada aqui como o modelo físico que abriga os personagens de um filme, creio ser o que há de melhor, de mais apreciável, de mais autêntico. Mesmo sendo difícil esquecer o esquematismo do professor de atuação sendo preterido ao aluno mais improvável (se bem que engraçada e justa a admiração do aluno por Marlon Brando), ou a potencial situação de um breve relacionamento sexual tentada pela mãe da família, o fato de o filme ter sido rodado numa região da cidade que é, afinal, "uma pequena aldeia de com índole de lugar de pescadores do litoral do Atlântico Norte", empresta simpatia ao filme. Não sei até que ponto tal glamour seria suficiente para recomendar um filme tão “manjado” e pouco assumido, mas, se obrigatoriamente existir razão para a visita, o quesito geográfico utilizado acabará por cumprir sua missão de ponto de atração.

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