Partir:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: França
Direção: Catherine Corsini
Elenco: Catherine Corsini. Com Kristin Scott Thomas, Sergi Lopez, Yvan Attal.
Duração: 85 min.
Estréia: 18/12/2009
Ano: 2009


Assunto mal tratado.


Autor: Cid Nader

Catherine Corsini é mulher – evidentemente. Quanto mais avança na tela a trama de amor, traição e inconformismo, muito mais uma história de paixão feminina – que faz o mote condutor de Partir - fica explicitada, vem à mente a certeza de que somente uma mulher poderia dirigir um filme com tais ingredientes de modo tão entregue, deslavado, quase confessional. Optar pela atriz britânica Kristin Scott Thomas – com aquela fleuma típica dos seus, e aquele jeito de gente fina a toda prova: elegante, bela, de respiração sensata e ares de de gente sempre comedida -, talvez tenha sido o único acerto da diretora na opção geral da confecção desse seu filme mais recente. Se não único acerto, o único plausível o suficiente para arrastar espectadores a assistir ao trabalho.

Como? Um filme de alma feminina, que fala da escapada de uma mulheres de sua gaiola dourada, de sua vida perfeita, familiar e segura, até então sem nenhum tipo de necessidade de outras buscas, sendo rompida bruscamente por conta do apelo da paixão, resultando algo descartável? Pois é. Sim. A diretora, associada pelo companheirismo e verdadeira entrega da atriz, acabou por escorregar na tênue escarpa que mantém de um lado a possibilidade idílica do desnudamento da alma (essência, singularidades, mistérios, o que seja) feminina por um espécime do gênero, e conserva do outro (lado) a possibilidade do erro grave, motivado pelo esforço no desnudamento, através de mecanismos que ferem a boa realização da arte. Escorregou e caiu do pior lado.

Afora o fato de novamente se poder constatar o quanto diferente é a entrega da mulher apaixonada quando comparada à do homem – as mulheres tendem ao martírio próprio, de sua “segurança”, sem perceber muito o quanto podem estar embarcando em bote furado ou apodrecido (o que não é o caso da opção de Krsitin no filme, diga-se), enquanto os homens tendem ao martírio alheio, à humilhação da que está sendo abandonada, quando se vêem enredados num novo caso de amor, e, quase sempre, com um pé ainda em terra firme (sei que essa minha observação pode causar controvérsias e questões, mas histórica e biologicamente é assim que as coisas quase sempre sucedem) –, representado aqui pela ação do personagem de Kristin, ao jogar tudo para o alto no momento em que o inconsciente animal clama fortemente; afora a boa atuação da atriz, que manifesta suas sensações com breves mudadas de sorrisos, ou olhares, ou sutis trejeitos corporais, Corsini executou um trabalho que abastecido pelos piores ditames das cartilhas de filmes de paixão.

Cria repetidas singelezas pictóricas nos momentos do novo prazer; entrega um lar dourado e perfeito, que ganha ares de prisão edulcorada quando as coisas esquentam; remodela maniqueisticamente personagens ao modo que os momentos exigem (a transformação do marido, as opções de filho e filha); imaginando o final mais acomodado (desse ponto de vista das cartilhas), que impede, que, no fundo, no fundo, não imagina a mulher como o ser forte e determinado que deveria ser, pelo pintado , pelo insinuado. Possível na vida real? Sim. Mas fraco, entregue, para uma composição artística – coisa que o cinema é.
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