A Vida Íntima de Pippa Lee:


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Original: The Private Lives of Pippa Lee
País: EUA
Direção: Rebecca Miller
Elenco: Julianne Moore, Keanu Reeves e Maria Bello
Duração: 93 min.
Estréia: 18/12/2009
Ano: 2009


Superficialismo moralista e infantil.


Autor: Fernando Oriente

A Vida Íntima de Pippa Lee escancara a falta de rumo de um tipo de cinema que não consegue desenvolver minimamente qualquer espécie de contexto dramático. O longa, dirigido por Rebecca Miller, é um amontoado de clichês mal explorados embalados em uma roupagem careta que se pretende “contemporânea”. O que se vê no filme é a tentativa infantil de se discutir uma crise existencial em que temas como os questionamentos femininos na sociedade atual são banalizados por um superficialismo em que preceitos os morais rareficam a complexidade da protagonista e mancham a construção dramática de todos os que interagem com ela. Pippa Lee surge na tela como uma mulher fraca, sem nenhuma capacidade de se impor em seu meio. O que mais incomoda no filme de Miller é o fato dessa incapacidade de sua protagonista ser fruto da superficialidade da personagem e da banalidade das situações dramáticas. O roteiro sofrível é tornado pior pela pieguice e a falta de competência visual da diretora, incapaz de posicionar a câmera e responsável por uma decupagem de seriado de TV.

O moralismo é a matéria-prima de Rebecca Miller. Por mais que ela tente disfarçar, as situações encenadas e os motivos de seus personagens são contaminados por essa moralidade atávica de uma sociedade quadrada em que questões de maior contexto existencial são massacradas por regrinhas de conduta. É explícito o tratamento preconceituoso do filme em relação às drogas e medicamentos e chega-se ao cúmulo de associar a busca por liberdade de Pippa Lee ao ato de fumar. O cigarro é vilão no mainstream há muitos anos, e seu uso como símbolo no longa chega a ser constrangedor, já que fumar não passa de um tentativa desesperada de romper com as mazelas da rotina, uma ação encenada como uma “travessura”. É o politicamente correto travestido, é uma associação canalha entre a desorientação da personagem com o que a sociedade da moral define como não-salutar.

O tratamento do sexo, ou melhor, a ausência de sexualidade em A Vida Íntima de Pippa Lee, expõe ainda mais a caretice do filme. É nítido como questões de sexualidade são reprimidas no drama, os tipos nos chegam como seres ocos de sensualidade e na única sequência em que se aborda o tema, vemos uma constrangedora cena em que o desejo é confundido com culpa e sofrimento. As personagens praticamente assexuadas do longa não passam de crianças mimadas que acham que têm problemas. E, como não poderia deixar de ser em se tratando do mal cinema americano, Rebecca Miller contextualiza os tormentos de sua protagonista em traumas do passado, que nos chegam por meio de uma narração em flashback cheia de lugares comuns que atravanca ainda mais a já capenga evolução do filme. A mãe reprimida, as amigas lésbicas, as experiências com drogas, o erotismo libertário de programa de auditório e as dificuldades de Pippa em se relacionar com os filhos e o marido mais velho não passam de obviedades manjadas que irritam ainda mais pela banalidade da abordagem superficial e pela ausência de densidade das sequências.

A opção em mostrar tudo do ponto de vista de Pippa torna-se um problema sério graças à mediocridade na construção da relação entre Pippa e os demais personagens. Todos os tipos que vemos na tela são constituídos de um vazio total de conteúdo. Diálogos infantilóides mostram a falta de rumo dramático do filme e para completar somos forçados a presenciar um patético happy end que parece ter sido escrito por uma adolescente caipira do meio-oeste americano acostumada a ler os romances da série “Sabrina”.

O elenco, composto por nomes que já mostraram competência em filmes anteriores, é transformado por Rebecca Miller em um amontoado de atores e atrizes perdidos na banalidade do drama e carentes de direção de cena. É uma pena vermos Alan Arkin, Winona Ryder, Robin Wright e Juliana Moore embaralhados na incompetência desse tipo de cinema de butique cafona, que tenta se vender como adulto quando não passa de uma brincadeira de criança reprimida.

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