HARRY POTTER E O CÁLICE DE FOGO:


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Original: Harry Potter and the Goblet of fire
País: Inglaterra/EUA,
Direção: Mike Newell.
Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, James Phelps, Oliver Phelps, Bonnie Wright, Jeff Rawle, Robert Pattinson, Jason Isaacs, Tom Felton, Stanislav Ianevski, Robert Hardy, David Tennant, Katie Leung, Robbie Coltrane, Michael Gambon e Devon Murray.
Duração: 157
Estréia: 25/11/2005
Ano: 2005


"Harry Potter e o Cálice de Fogo" é chato. Muito chato


Autor: Cid Nader

Já ouço há muito tempo brados de puristas contra o cinema "arrasa-quarteirão", que gasta somente em divulgação - por filme e ao ano - fortuna suficiente para a realização de mais da metade da produção cinematográfica do Brasil. Considerar cinema exclusivamente obras que transitam fora dessa auto-estrada de última geração que é a grande indústria do "entertainment" representa burrice, atraso, pensamentos obtusos e tão desvirtuadores quanto a "alienação" das mentes inocentes e puras, que é "fato certo" para quem prestigia tais trabalhos.

Se fosse citar casos de verdadeiras obras-de-arte oriundas do cinemão, talvez tivesse que dedicar esse meu texto somente a tal função. Mas para não passar em brancas nuvens, cito dois exemplos recentes, "Hulk" e "Homem Aranha 2", que além de cinema de altíssima qualidade, atingem tal profundidade na discussão de suas histórias, que seriam capazes de envergonhar obras que, para evidenciar assuntos relevantes, abdicam do direito de serem qualificados como "cinema", na mais bela concepção da denominação.

A saga do bruxinho incursiona pela quarta vez nessa mídia que tanto nos emociona e cativa, mas não consegue fazer bom uso de suas particularidades e caminhos - leia-se: roteiro, ritmo, montagem, direção geral, atuações. A história desse capítulo da saga tem como mote condutor uma competição entre escolas de bruxaria, com direito, ao vencedor, da cobiçada "Taça Tribuxo".

A disputa serve como mote condutor, apesar das inúmeras vertentes que a obra literária oferece, colocando no mesmo patamar de importância da competição a volta em busca de vingança e reconhecimento de Lorde Voldemort (no filme interpretado por Ralph Fiennes), a probabilidade de "tempos difíceis" que se anuncia, a morte presente e próxima como nunca e as complexidades da adolescência cada vez mais ativa e disposta a descobrir o desejo e o amor.

É certo dizer que o filme utiliza todos esses tópicos presentes no livro, mas somente como adorno, como moldura, já que fica nítida a intenção do diretor Mike Newell em centralizar forças na disputa, desperdiçando tantas grandes possibilidades.

Então, começam os problemas. Como aposta todas as suas ricas fichinhas nas três competições que levarão à Taça, Newell, divide o filme, preparando-o para três grandes momentos de clímax, fazendo com que os enormes espaços reservados à preparação transcorram de forma modorrenta, sub-utilizando nesses momentos de marasmo. Portanto, desvalorizando aquelas outras possibilidades que J.K.Rowling criou em seu livro. Ora, se o filme é por três vezes estanque, conclui-se que não tenha ritmo, o que - quando se trata de obra dirigida ao público jovem - caracteriza, no mínimo, erro de avaliação quanto à melhor maneira de prender os espectadores às suas cadeiras.

Outro grande problema toma corpo com a centralização da trama em cima da figura imberbe de Harry Potter, principalmente nos momentos em que o caminho ao ápice está sendo executado, quando são deixados de lado todos os outros competidores, que mal servem de escada para essa subida, numa completa inaptidão cinematográfica do diretor. Chega a ser irritante notar que além de Harry e seus eternos companheiros, Rony Weasley e Hermione Granger, as câmeras pouco se voltam aos outros personagens. É óbvio que quantitativamente, numa superficial passada d'olhos, não parece tão exata essa constatação: o filme é recheado de efeitos especiais, há embates que evidenciam outras figuras da trama, personagens são bem trabalhados visualmente. Mas, quem exige um mínimo de diversificação, de espargimento de qualquer história, sai frustrado ao perceber que o mundo é "Harry e companhia bela".

Que Mike Newell não é diretor autoral, nem seria necessário dizer pelo passado de sua obra, que não se repete e não tem marca registrada - o que, em outros casos é virtude admirável. Tem, inclusive, um grande filme em seu currículo: "Dançando Com um Estranho" e outros até que bem apreciáveis: "Donnie Brasco" e "Alto Comando". Essa "impessoalidade artística" poderia ser grande trunfo para um filme como esse, mas revelou-se um fiasco. Ele conseguiu fazer de "Harry Potter e o Cálice do Fogo" um filme chato, muito chato.
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