Nova York, Eu Te Amo:


Fonte: [+] [-]
Original: New York, I Love You
País: EUA/França
Direção: Allen Hughes, Brett Ratner, Fatih Akin, Jiang Wen, Joshua Marston, Mira Nair, Natalie Portman, Randa
Elenco: Natalie Portman, Orlando Bloom, Christina Ricci.
Duração: 110 min.
Estréia: 18/12/2009
Ano: 2009


Muito melhor do que os congêneres.


Autor: Cid Nader

Nova York, Eu Te Amo é um assombro de bons resultados quando comparado a outros “filmes de direção corporativa”. Quando se imagina a costura de estilos e histórias originadas das cabeças e atos de vários diretores, já se antevê um despropósito de intenções que raramente confluiriam em favor de um resultado que possa ser classificado como “um filme de cinema”. Por mais estranho que possa parecer, mesmo quando há um mote unificador dentro da proposta – no caso desse aqui, impressões pessoais sobre a grande cidade ianque e suas coisas -, raramente se consegue fazer com que o fluxo narrativo de trabalhos de tal monta e formato tenham adequação exata e cara de trabalho dentro de uma mesma película, de uma mesma sessão, de um mesmo propósito, Daí, à dispersão do espectador, à não aceitação da proposta como trabalho único, à não compreensão e ao não bom resultado mesmo como obra a ser considerada, meio passo.

Um dos bons pontos positivos do filme recai na justa adequação que os diretores fizeram entre as gentes da cidade e a ocupação de seus espaços físicos, de seus locais, de suas singularidades. Quando se pensa em Nova Iorque, se pensa no mundo misturado lá dentro, no caldeirão de etnias imiscuídos, mesclados, isolados, nesse todo humano que a compõe e a faz imaginação de anseio à Babel que deu certo. Quando se pensa na cidade, se imagina o Central Park, no frio, em esquinas pequenas ou na grandiosidade de avenidas específicas, nas lojinhas judaicas ou chinesas, nas comidas indianas ou árabes, num mundo dentro do mesmo lugar – e quando se faz isso (pensar nessa ajuntação toda) com olhos e idéias menos pré-concebidas em imaginar massacre do concreto e da correria, se pensa nesse local que abriga pessoas, afinal de contas, e que mesmo vindas de diversas regiões e com pensamentos tão distintos, conseguiram criar uma espécie de civilização própria, gerando um fato que leva à constatação de vidas e almas deveriam fazer o quinhão mais importante do local.

Mira Nair filma belamente um encontro de negócios entre uma judia ortodoxa e um comerciante indiano, engatando no encontro um diálogo que fala de questões tão fundamentais às suas razões de vida caso não morassem ali – falam bem humoradamente das religiões deles e das dos outros, das suas alimentações, de seus anseios particulares, possíveis por estarem sendo realizados num local do mundo que permite isso... -, fechando seu segmento com uma cena de casamento possível na Cisjordânia ou ali (no máximo, ainda, em São Paulo). Ela consegue emprestar a idéia do que é a cidade, e do que é possível ser feito por ali. A própria Natalie Portman (atriz do segmento de Nair) assina seu quinhão como diretora de um “episódio” que se passa quase todo no Central Park, que envolve criança, paternidade, um tanto de segregação instintiva (aquela que vem à tona por vias “naturais” de criação e de aprendizado familiar: sempre condenáveis, mas de fácil percepção das origens), e um belo final com dança solo de balé, como uma representação inequívoca da c tendência à cultura, muito própria de lá local.

E por aí vai cada uma das histórias contadas por cada um dos diretores envolvidos – onze , doze, treze. Sem nenhuma realmente execrável, com muitas bem boas. Não dá para não se rir muito na história do casal de velhinhos que anda junto por uma região portuária, que se alfineta o tempo todo mas que se ama de verdade. Não é isso a vida? Não é de vidas que se compõem seu melhora material as cidades? O episódio da bela funcionária chinesa que vira alvo da atenção de um artista plástico em seu grande ateliê/morada é tão visceral quanto o comportamento boêmio, tão frágil quanto a beleza branca e única da atriz. De entre essa circulação das histórias, de entre a cidade e de entre as pessoas (vidas, histórias), surge um outro ponto positivíssimo do trabalho (que, aliás, o afasta de modo radical de seu outro “irmão” de origem, “Paris Eu Te Amo”) está na transição de elementos entre as histórias: percebe-se a intenção de se criar fluidez entre os “segmentos”. Ao contrário de colegas meus que viram nisso um ponto aprisionador, senti aí a idéia de filme se completando. Imagino que tal interação – não necessária na marra, evidentemente – como um forte aspecto de composição cinematográfica integrada, de diálogo entre os estilos, sem a ruptura forte, que por vezes esvazia e dispersa. Acomodada tal opção. Para mim, para o meu gosto, não. Necessária. Volto a dizer: um assombro de bons resultados quando comparado a outros da mesma pecha: e com as irregularidades óbvias de existirem, também.

Leia também: