Avatar:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: EUA
Direção: James Cameron
Elenco: Zoe Saldana, Sigourney Weaver e Sam Worthington
Duração: 166 min.
Estréia: 18/12/2009
Ano: 2009


Pra entrar pra história: dos parques de diversão.


Autor: Fábio Yamaji

Dia de expectativa fora do normal. Acordei mais cedo que o habitual e corri pra não me atrasar. Tomei o café da manhã reforçado e segui pra fila que já estava imensa. Ganhei brindes, peguei meus óculos especiais, fui fazer xixi e entrei na sala IMAX procurando o melhor lugar pra sentar. A excitação dominava os presentes. Esperando o início do filme me toquei de algo: ninguém estava ali pra assistir uma boa história, e sim pra conhecer uma nova experiência que se anunciava. Uma nova diversão. Assim como estrear uma montanha russa ou saltar de bungee-jump pela primeira vez. Pelo menos a minha expectativa no momento se equiparava mais a esses passeios do que à estréia de um filme (ou, neste caso, cabine de imprensa). O filme em si parecia secundário. É provável que tenha sido assim com o ilusionista francês Georges Méliès, quando presenciou o nascimento do Cinema naquela lendária noite em Paris, em 28 de Dezembro de 1895. A ele não interessou tanto o filme “Chegada do Trem à Estação” dos irmãos Lumière, mas sim a reação que causou aos convidados presentes. Assistindo à projeção das imagens em movimento na tela grande, alguns destes primeiros espectadores do Cinema saíram correndo, assustados com o trem que se aproximava - mesmo que em Preto & Branco e sem som. Foi o suficiente pra que Méliès decidisse comprar um cinematógrafo - não pra filmar o cotidiano parisiense, mas pra testar experimentos que causassem mais e maiores reações de espanto e maravilhamento, como os daquela noite. Nasciam assim os efeitos especiais no cinema - com base na animação e na composição trabalhadas artesanalmente, com truques óticos.

E é através da animação, da composição digital e da tecnologia de captura de movimento - aliada a uma avançada câmera estereoscópica 3D - que James Cameron nos leva a um novo passeio fantástico, nos jogando dentro do filme, em completa diegese. Novo, porque a computação gráfica finalmente é crível, pois até então as criaturas humanóides fotorrealistas se movimentavam de forma cartunesca ou muito particular (casos de Gollum e King Kong) ou, quando tinham uma atuação natural, pareciam zumbis pelo olhar morto (“Final Fantasy”, “Expresso Polar”). Agora, seres humanos (os atores) contracenam com seres humanóides virtuais sem que este aspecto técnico se torne um evento em si. O olho-no-olho é real e o toque é sentido. Sendo Avatar um filme de fantasia, tudo dentro de seu universo espetacular é possível, mas a coerência física e biológica em certa medida mantém um conforto que faz com que o espectador aceite as pirações naturalmente. Falo do tecido da pele e as veias das criaturas, a vegetação, o peso no movimento dos bichos, o desenho de som. Cameron alcança este equilíbrio com extrema habilidade (coisa da qual Michael Bay é incapaz). Assim, abre-se espaço para total – e virtualmente literal (sic) – imersão na história.

História que é muito simples. Um soldado é destacado para explorar um mundo pouco conhecido e, após ser aceito pelo povo local, supostamente hostil, passa a lutar pelo novo lar, contra seus superiores. Uma aventura épica que já foi contada inúmeras vezes no cinema: em contextos, conflitos e épocas diferentes. Um pano de fundo potencial para cenas de ação fantásticas - que é o pretexto de todo o projeto, sejamos francos. O ponto original e interessante aqui, que nos faz voltar ao olhar de Méliès e à sensação da projeção 3D citados acima, é que o personagem principal, Jake Sully, é paraplégico – um cadeirante. Para cumprir sua missão de contato com o outro mundo, Pandora, ele fica imóvel dentro de uma cabine que transporta sua consciência para um corpo biológico criado em laboratório – o tal “avatar” –, através do qual poderá circular no território de atmosfera tóxica. Me parece uma analogia com a condição fisicamente passiva do espectador que, junto com os recursos estereoscópico 3D, efeitos especiais e som envolvente, é transportado para dentro da aventura, em uma nova e cinética experiência. É a metalinguagem em sua melhor transposição. A reação de Jake na primeira “encarnação” em corpo Na’vi (o povo de Pandora) reflete o que James Cameron buscou concretizar nos últimos quatro anos de pesquisa e trabalho.

Definidos trama e tecnologia, faltava produzir sequências incríveis de ação pra justificar o investimento. E assim foi feito. Não bastasse a beleza de todo o universo criado, as cenas se desenvolvem em bom cinema, com narrativa eficiente e convencional. Sim, tudo muito certinho e dentro da cartilha hollywoodiana de roteirização. Afinal, seria cruel elaborar um pouco mais uma sequência ou outra, exigindo maior reflexão de um espectador que já sofre com o desconforto dos óculos gigantes, que causam um nó mental pela estereoscopia. Impressionam a agilidade e clareza da montagem, que não nos deixam perder o fio da meada nas cenas de luta e perseguição, compostas de cortes e planos em número elevado. Não à toa, James Cameron acumula as funções de roteirista, diretor, operador de câmera e montador. Ele não faz a música porque James Horner, seu trilheiro habitual, soube dar o clima correto com o uso de coro e orquestra completa em quase todo o filme. Por vezes aparece demais, mas não compromete. É uma bela trilha sonora. Enfim, o homem conseguiu fazer algo singular de novo.

Avatar quebrará novos recordes e formará uma legião de fãs, que assistirão ao filme repetidas vezes, como aconteceu com “Titanic”. Eu mesmo o revisitarei na telona. Recomendo fortemente as salas 3D.

O Cinema continuará como conhecemos, mas os gêneros “Ficção Científica” e “Fantasia” ganharam uma ponte para outro tipo de diversão audiovisual. Uma ponte como aquela que Georges Méliès projetou na sessão dos irmãos Lumière.

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