Praça Saens Peña:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Vinícius Reis
Elenco: Chico Díaz, Maria Padilha, Gustavo Falcão, Isabella Meirelles, Aldir Blanc
Duração: 100 min.
Estréia: 22/01/2010
Ano: 2008


Direto do Aurora, em Tiradentes.


Autor: Cid Nader

Quando vi esse filme na Mostra Aurora, segmento da “12ª Mostra de Cinema de Tiradentes”, Praça Saens Peña pareceu até um estranho no ninho. O filme mais "comportado" no quesito montagem, roteiro e formulação estética; aquele que utilizava atores mais conhecidos (Chico Diaz e Maria Padilha); trabalho que se construia dentro de cenários mais comuns, sem intervenção direta na sua constituição física. Isso, num “braço” da mostra que primava por trabalhos descontínuos, fragmentados, que tentavam exercitar a maneira de fazer cinema por vieses que pouco se apodervam do comum, que pouco utilizavam mecanismos mais tradicionais, poderia levar a pensar no filme como obra menor – quando comparada à "ousadia" das outras.

E o filme ameaça ser "fácil" nos seus primeiros instantes, um tanto fracos "dramaturgicamente". Inicia com uma exposição dos fatos que remete a confecção meio infantil – a escola onde o pai dá aula e a filha é sua aluna (mas sem que os colegas e classe saibam disso), a encenação no apartamento da família onde todo o comportamento e atitudes ditam situações de cartilha (felicidade num momento, falta de grana, filha adolescente que é bacana mas reivindica um computador para poder estudar melhor e se revolta facilmente com a passividade dos pais...). No quesito técnico, a utilização da câmera com "movimentos chicote" em excesso (quando há o movimento rápido na horizontal, de um personagem para o outro, na tentativa de imprimir dinamismo e uma certa cara de obra atual) e algumas tentativas de ângulos infelizes. Além do mais, o mote que fará a história desenvolver surge de modo pouco trabalhado: é oferecida a possibilidade do personagem interpretado por Chico Diaz escrever um livreto contando histórias e fatos da Tijuca (RJ), o que resulta em entusiasmo por parte de sua mulher ante a possibilidade de um certo conforto monetário (numa casa que vive com a grana contada), e uma exaltação dele como um alguém que terá a oportunidade de finalmente mostrar seu talento.

Mas breco minhas queixas, porque o que ocorre é que durante o desenvolvimento da trama a história apacienta, o filme reconhece um rumo por onde transitar, e as situações saem da formulação "cartilhanesca", para ganharem matizes interessantes e de forte sensibilidade quanto à observação pessoal de cada um. Como se fosse pensado assim, as nuances do filme vão se multiplicando conforme a película avança, fazendo com que o filme ganhe beleza e o que dizer a cada minuto a mais. Surge o conflito interno do personagem de Maria Padilha, que não extrapola possibilidades em sua atuação, se contendo o suficiente para dar credibilidade ao que ocorrerá em seu futuro na história. A filha também merece seu pedaço no quinhão imaginado pelo diretor, que sabe como manipular (no bom sentido) as complexidades adolescentes.

A pesquisa do professor avança a ficção e abraça personagens e lugares (com mérito maior para a participação de Aldir Blanc), fala da Tijuca e da praça Saens Peña. As angústias ganham corpo, avolumam, explodem, e há o corte documental que finalmente revela aspectos físicos da praça – um contraste para quebrar mesmo as tensões (se impede aí a banalização do drama). Ao final, um filme que surpreende positivamente, ao contrário do que se suporia inicialmente.

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