Atividade Paranormal:


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Original: Paranormal Activity
País: EUA
Direção: Oren Peli
Elenco: Katie Featherston, Micah Sloat, Mark Fredrichs, Amber Armstrong, Randy McDowell.
Duração: 99 min.
Estréia: 04/12/2009
Ano: 2007


O estranho familiar


Autor: Laura Cánepa

Desde que Freud escreveu seu influente texto "O Estranho", tratando tanto da literatura fantástica quanto de uma certa sensação de medo que todos nós já experimentamos em algum momento de nossas vidas, boa parte da ficção de horror passou a explorar com mais consciência o que o médico austríaco chamava de "estranhamento familiar", isto é, o medo que sentimos quando algo que nos parece absolutamente conhecido se reveste de uma aparência de mistério e perigo iminente.

Um dos primeiros exemplos desse fenômeno, cujas representações artísticas antecedem muito o texto de Freud, é a idéia do duplo perfeito ou da sombra que ganha vida. Outro exemplo, mais característico da ficção pós-psicanálise, é a transformação de um objeto ou espaço cotidiano em fonte de ameaça, sensação muito bem explorada por surrealistas como Luis Buñuel e David Lynch.

Pois bem, é nessa última categoria que reside, na minha opinião, a maior força de Atividade Paranormal, e não apenas no modelo "mockumentary" de "A Bruxa de Blair" que tem sido apontado como explicação para seu sucesso. O filme, dirigido e escrito pelo estreante Oren Peli em 2007 e transformado em fenômeno de público em 2009, segue mais de perto a estratégia que, depois de "A Bruxa de Blair", se tornou bastante comum: a de emular gravações caseiras para revelar situações extraordinárias - neste caso, a transformação de um ambiente e de um casal absolutamente comuns em objetos progressivamente mais estranhos, num caminho que parte do cômico ao quase insuportável.

Nesse sentido, o interesse do filme é inegável, e sua "economia narrativa" - causada, em grande parte, por constrangimentos econômicos, já que a produção custou 15 mil dólares -, acaba possibilitando um resultado bastante intenso. Também o trabalho dos atores Katie Featherston e Micah Sloat é suficientemente realista para que fiquemos convencidos das situações absurdas em que eles acabam se envolvendo.

A história, a essas alturas, todo mundo já sabe: um jovem casal resolve investigar por conta própria os estranhos fenômenos que assombram a esposa Katie desde os oito anos de idade e, para isso, compram uma câmera de vídeo através da qual registram tudo o que se passa na casa, inclusive quando eles estão dormindo ou ausentes. Os problemas se adensam à medida em que os registros começam a mostrar que há algo realmente perigoso acontecendo, mas nenhum deles sabe como resolver ou reverter a situação.

Acredito que, entre as realizações dos últimos anos que usaram a estratégia do pretenso registro "amador" ou "documental", como "Rec", "Cloverfield", "Home movie" etc, o filme de Peli se sustenta como um dos mais competentes, mas não propriamente por causar medo (o que acontece apenas em poucos momentos), e sim por nos levar a acreditar no registro caseiro, amador e espontâneo. Com isso, o filme acaba por sugerir grandes possibilidades expressivas a serem exploradas nesse tipo de realização - que tem a vantagem de poder ser muito barata (embora nem sempre o seja) e de ter encontrado espaço significativo no cinema comercial.

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