Aconteceu em Woodstock :


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Original: Taking Woodstock
País: EUA
Direção: Ang Lee
Elenco: Demetri Martin, Jeffrey Dean Morgan, Imelda Staunton, Emile Hirsch, Paul Dano, Liev Schreiber.
Duração: 110 min.
Estréia: 11/12/2009
Ano: 2009


Um filme escancaradamente impressionista.


Autor: Cid Nader

No momento em que a imagem da multidão de centena de milhares de pessoas, sentadas ou dançando numa extensa área em declive, ganha vida e começa a ondular como se fossem ondas calmas e altas no oceano – justamente após uma viagem lisérgica de Elliot Tiber (Demetri Martin) -, nesse momento, no qual ao fundo, longe, embaixo, explode na tela esquentando um trecho dela com luz feérica e colorida, Ang Lee consegue atingir de forma mais direta e honesta o que aparentou ser seu maior objetivo por todo o transcorrer de Aconteceu em Woodstock: vincou a idéia de que o que se está vendo na tela é um filme escancaradamente impressionista. Sim, impressionismo, que resumida e facilitadamente designa as obras de artes pintadas ou retratadas por seus autores, com a impressão de situações, instantes, resguardados em algum recanto da memória.

Falar que o autor, realizador de obras das mais variadas tendências técnicas – basta lembrá-lo em início de carreira, agindo ainda como um recém formado estudante (formou-se onde nasceu, Taiwan, em 1975, logo emigrando para os EUA), quando filmava com mais exercício de estilos, usando trejeitos oitentistas em filmes que retratavam a década de oitenta, modos de zooms e afins, iluminações de situações que remetiam às usuais das datas retratadas em seus primeiros trabalhos... - e que se “acomodou” na elegância possibilitada pela fama em seus filmes de maior alcance público, tem feito da discussão da repressão de sentimentos particulares o mote autoral de sua carreira, nos quesito essência humana e na discussão dos problemas enfrentados por seus personagens na tentativa de “escapar” de suas sinas familiares, parece algo até dispensável dessa vez. Até porque, como trabalho de relações humanas, de discussão dos rumos, de tomadas de atitudes, Aconteceu em Woodstock sofre gravemente de confiabilidade, de crença no discurso.

Tal deficiência, talvez se deva ao excesso caricatural que adorna e anima as vidas da maioria dos personagens, com seres que evidenciam demais suas personalidades, seus “jeitos”, com trejeitos excessivos, caretas, atitudes estranhas – não sei se como uma falha na preparação dos atores, ou se por falta de competência dos próprios ao terem de criar composições que beiravam facilmente a tinta forte da época. Tal ponto fraco, talvez decorra da necessidade de explicitar na tela as situações da época – de forte aspecto impressionista a Lee -, embaralhadas com as atuações, para fazer do filme algo próximo do “ideal fácil” da arte, do cinema comum: obra atuada, com imposição das histórias humanas sobre o fundo cênico. Tal necessidade acabou por entregar uma obra de encadeamento desigual e irregular – se não se buscasse isso de modo tão óbvio, poderia ser um quesito não questionado -, com fluidez narrativa truncada por situações falseadas ou jogadas goela adentro, e grandes problemas de ritmo.

Por tais problemas tão evidentes é que se faz necessário tentar entender e ver o filme como um momento de explicitação das imagens iconográficas daquele momento, na memória do diretor. Ang Lee, nascido em 1954, tem idade justa para ter passado por aquele momento como algo de extrema marca pessoal. Adolescente, então, quando tudo tem importância demasiada e situações de grande aspecto, difundidas enormemente, se estabelecem nos anseios, na memória. Percebe-se que o diretor utilizou os signos mais marcantes daquela empreitada única e maior, acontecida no auge do movimento hippie, no auge do anti-militarismo, do paz e amor, dos protestos contra a Guerra do Vietnã. Muitos desses signos devem ter se estabelecido nele desde então – como para grande parte da humanidade – e retratá-los por ação de impressão resultou a parte louvável e mais correta do filme. Estão lá as cenas dos jovens dançando e se enterrando na lama que crescia cada vez mais, à medida que chovia nos dias do espetáculo; outra cena marcante e repetida aqui é a do helicóptero que conseguia fazer o deslocamento dos artistas que se apresentaram – aditadas aqui como o meio de transporte da organização -; as quilométricas filas de carros; o som (não propriamente um aspecto impressionista visual) ouvido ao longe por toda a região; o cavalo branco montado por Michael Lang (mais uma interpretação caricatural, no caso, por Jonathan Groff)...

Um filme de impressões, que falha no aspecto de querer ser comum, e que tem seu grande momento justamente na viagem lisérgica de Elliot, que inicia dentro de uma Kombi colorida, onde as pinturas psicodélicas ganham vida, aos poucos, explodindo em beleza e marcando definitivamente no momento em que o terreno vira ondas, ondulando vagarosamente um mar de pessoas. Se Ang Lee, conscientemente, atirou na discussão da repressão e da necessidade de escape do jovem Tiber, acertou, talvez inconscientemente, ao aflorar a sua memória imagética.

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