É Proibido Fumar:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Anna Muylaert
Elenco: Glória Pires, Marisa Orth, André Abujamra, Antonio Abujamra, Paulo César Peréio.
Duração: 86 min.
Estréia: 04/12/2009
Ano: 2009


É para ser observado sob aspectos menos ostensivos.


Autor: Cid Nader

Indo além do comum, Anna Muyllaert – que seria do de se pensar na diretora re-retratando São Paulo como uma fiel e atenta conhecedora dos meandros e entranhas menos à vista do que o é revelado ao resto do pais via novelas e noticiários, ou seja o de evidenciadora dos aspectos físicos e geográficos da cidade – reforça nesse seu novo trabalho uma atenção muito mais específica às pessoas da cidade, o que seria também comum, só que extrapolando o “simples” acompanhamento dos corpos e mentes, para tentar estabelecer uma visão sobre outros aspectos da “civilização paulistana” somente reconhecível por quem é daqui: ou por quem se deixou adotar verdadeiramente.

Já nos créditos iniciais uma ligação paulistana se percebe conectada fortemente, a ponto de se embarcar na idéia de observação originada lá em “Durval Discos” (2003), mesmo que em se pensando nas semelhanças apenas pelos primeiros aspectos reconhecíveis – e desejados, pelos menos atentos -, que são os da carga física da cidade e dos sotaques e trejeitos dos que seus cidadãos. Não sei até que ponto É Proibido Fumar pode ser considerado um bom filme, ou até que momento se poderia atrelá-lo ao primeiro longa-metragem da diretora, mas consigo perceber claramente até em quais instâncias ele observa uma São Paulo que poucos conhecem – e isso, por si só, poderia representar mérito suficiente para que o trabalho seja bem recebido -, e até em que instante isso se faz por um viés “leve sarcástico', “leve auto-ironizador”.

A diretora conta a história de uma mulher já na faixa dos quarenta anos (Baby) – personagem mais comum, impossível -, representada digna e firmemente por uma inspirada e segura Glória Pires, que mora num apartamento deixado pela mãe, um tanto frustrada por viver de aulas particulares de violão, sendo quem evidentemente, o grosso de sua renda vem ainda da herança, outro tanto frustrada por ver as duas irmãs bem estabelecidas (uma no casamento e outra no trabalho), e mais um tantinho por não admitir abertamente que deseja um bom relacionamento amoroso. Aparece um novo vizinho, Max (Paulo Miklos), também ligado à música, com suas frustrações, seus dramas particulares, bastante diverso dela em seu comportamento e gostos, mas... estamos falando de cinema e já se sabe que os dois acabarão por se relacionar. Nesse aspecto, o do drama, o da trama que exige racionalidade e fácil percepção, o filme caminha por vezes bem, por vezes capenga, irregular, com alguns méritos, mas, principalmente, indeciso e acomodado demais – principalmente quando se pensa como referência em “Durval Discos”, que também sofre de um certo comodismo, mas que ganha ar e respiro, inusitados e fortes, após um corte e uma “segunda parte”, no mínimo, ousada.

Mas, como alertado no início: talvez o grande mérito desse trabalho de Anna mereça ser observá-lo por outro viés. Compreendê-lo como obra de uma diretora que entende e conhece muito bem seu quintal, a ponto de satirizá-lo carinhosamente, em algumas vezes, a ponto de fazê-lo reconhecível fora dos padrões comuns de reconhecimento. Em outras. A cena do jantar oferecido por Baby a Max, no apartamento dela, é um “digno” e inequívoco retrato de comportamentos e manias, modismos, paulistanos, raramente perceptíveis para quem não é daqui. As esquinas mostradas, os pedaços de chão com alguns verdes escapando, as cenas com os tipos humanos no elevador – aliás, numa delas, com uma homenagem familiar completa e ironicamente cool -, os diálogos e rixas familiares, revelam muito mais do que qualquer outro trabalho carregado de simbolismos ostensivos e de cartilha. Um filme que tem seus méritos em outras linhas. E – se quiser falar coisa boa da trama e dos personagens em si – que se finaliza com um belo momento de carinho e confiança: raro e singelo.

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