O Fantástico Sr. Raposo:


Fonte: [+] [-]
Original: Fantastic Mr. Fox
País: EUA
Direção: Wes Anderson
Elenco: Animação
Duração: 87 min.
Estréia: 04/12/2009
Ano: 2009


Wes na veia


Autor: Cid Nader

Costumo citar, quando vejo animações, meu prazer em poder cruzar com aquelas feitas no sistema belo e trabalhoso do stop-motion – aquele das massinhas, ou dos bonequinhos, movimentados um a um, fotografados quadro a quadro, e tal. Na realidade, nem todos os trabalhos feitos sob essa técnica são de massinhas ou bonecos, mas convencionou-se simbolizá-los por tal alcunha, que é linda e justa. Agora, O Fantástico Sr. Raposo - incrível e inimaginavelmente dirigido pelo moderno, cool e "inconformado quanto ao comodismo social", Wes Anderson -, é um belíssimo e inusitado trabalho feito dentro dos padrões mais comuns ao tema, ao sistema, sim senhor.

Mais incrível ainda que constatar o embarque do diretor numa jornada de tal modelo foi constatar que esse “desenho” representa um típico trabalho dele. Se fôssemos focar somente os personagens desprovidos de suas qualidades, índoles, almas, notaríamos que o raposo principal, sua esposa, seu filho deslocado no mundo, e seu sobrinho, são figuras longilíneas e de caminhar que resulta um misto ligeiro, alquebrado, malemolente e arrastado, numa constatação que remete a lembrar instantaneamente figuras (humanas, de carne, osso e ar) de seus outros filmes. Ele conseguiu empregar nos movimentos arranjados pela disposição do quadro-a-quadro aglutinado, trejeitos que obteve por atuações dirigidas e exigidas como modo de composição ideal para os seus “seres” vivos. Alie-se à construção longilínea e de ar contemporâneo dos bonecos, a velocidade imprimida a eles na mesa de edição, e um humor meio irônico e contido “a la” súditos da rainha, e constata-se mão do diretor.

Ainda atendo-me à forma dos personagens, como não lembrar dos não longilíneos e, ou determinados demais, ou assustados demais – como é o caso do gambá, ou dos diferentes três tipos humanos que participam da trama – que referem aos tipos mais mundanos de seus outros trabalhos, que carecem do ar de modernidade, mas constituem a dinâmica oposta: aquela que dá liga? O que imaginei quando vi a animação, foi estar presenciando orquestrações que os diretores cometem, para arrancar as atuações ideais ao seu proposto. E percebia, também, as figuras que gravitam na obra de Wes.

Fechando características plásticas do diretor, os momentos em que raposas e Cia cavocam seus túneis em fuga acelerada, “filmados” de ângulo chapado, lembram, de forma evidente, artes plásticas modernas – como colagens coloridas ou grafites , emprestando ao filme visual que retoma o colorido dos outros e momentos estáticos de primor fotográfico. Não dá para não lembrar das malas coloridas e de localização mutante nos quadros, do filme “Viagem a Darjeeling”, por exemplo, ou dos animados artificialmente personagens marinhos de “A vida Marinha com Steve Zissou”. Plástica e dinamicamente estamos no mundo do diretor.

Preenchidos de qualidades, almas e índoles, fortalece-se a certeza de que Wes Anderson não parece ter sentido muito a mudança de atores, e as complexidades anímicas obtidas numa espécie de autoralismo seu - existe uma evidente busca de mundos particulares em meio ao todo social em suas figuras, em seus trabalhos, como se elas representassem Dom Quixotes ou Holandeses Voadores, em busca de sua natureza particular -, assaltam a tela e dominam as figuras. O filme é baseado em obra literária infantil de Roald Dahl, e o próprio diretor emite sua disposição em trabalhar sobre ela, como uma tentativa de também alcançar o público infantil. Lembrando-se de seu pregresso e de sua obra anterior, fica fácil constatar que o resultado do trabalho até possa tocar a atenção das crianças - tem dinâmica suficiente para tal -, quanto fica fácil perceber que ele não conseguiu escapar de seus "vícios adultos": ainda bem.

A animação discute, numa camada de primeira observação, comportamentos humanos, inseridos em figuras do mundo animal - evidentemente, excetuando os humanos da trama. Mas o grande pulo, a grande força do trabalho resulta justamente da manutenção de comportamentos anormais como os humanos, em raposas, coelhos e gambás, apenas nessa primeira camada de observação, para explodir em "irracionalidade" e ancestralidades genéticas nos comportamentos e ações mais comuns do dia-a-dia - o mundo da animação, na realidade, em sua maioria, vive muito dessa história de colocar animais de outras espécies agindo como humanos em qualquer esfera: Anderson, não. Quando as raposas comem sofregamente os alimentos - na realidade dilacerando-os como fazem seus pares vivos, sempre ante a incerteza da próxima refeição -, dilacerando-os, mostrando os dentes agudos, o diretor fortalece sua observação dentro da índole de seus personagens. Enquanto ele evidencia que está trabalhando com a possibilidade dos truques - grande exemplo são os takes nas caras, que fazem perceber, por conta da movimentação alucinada dos pêlos que tudo aquilo é produto de manipulação -, mostra, por ações como as da alimentação, que, humanizados ou não, impondo dilemas humanos neles ou não, o que ele mais preza em seu cinema de forte apelo visual é a alcançar a essência, tocar o mais profundo dos âmagos: que podem fazer alguém sair à caça de um peixe raro por motivos não científicos, sim particulares ( “A vida Marinha com Steve Zissou”), ou preferir roubar para se alimentar, como um processo incrustado desde sempre no inconsciente.

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