Abraços Partidos:


Fonte: [+] [-]
Original: Los Abrazos Rotos
País: Espanha
Direção: Pedro Almodóvar
Elenco: Penélope Cruz, Lluís Homar, Blanca Portillo, José Luis Gómez, Tamar Novas, Rubén Ochandiano.
Duração: 127 min.
Estréia: 04/12/2009
Ano: 2009


O cinema é o refúgio de Almodóvar 


Autor: Fernando Oriente

O Almodóvar de Abraços Partidos é um cineasta que se encontra totalmente à vontade com seu objeto: o cinema. Aqui, em seu mais recente longa, o diretor espanhol funde elementos marcantes de sua obra, revisita valores de seu discurso cinematográfico e garante mais um filme em que o espectador é manipulado de forma passional e acaba por tornar-se cúmplice da visão estética desse autor ímpar. Abraços Partidos não tem as nuances de trabalhos mais sofisticados de Almodóvar, como “Tudo sobre minha Mãe” ou “Fale com Ela”, mas tem a visceralidade e a alta dosagem emocional do seu criador.

O cinema é  o que alimenta e move os personagens do longa, é o que traduz suas almas, é o que pontua e amplia a teia de relacionamentos e o que acaba por ser a solução dramática para o protagonista. Em Abraços Partidos temos a história de um cineasta que, após tornar-se cego, vive de escrever roteiros, preso em memórias e lembranças mal resolvidas. Com um humor único, característica de seu cinema mesmo quando aborda temas espinhosos, Almodóvar constrói uma narrativa partida em dois tempos, em que as recordações da narrativa passada pontuam e alimentam a sequência das ações no tempo presente. Essa bi-temporalidade, essa evolução em camadas de tempo distintas servem para Almodóvar alargar suas proposições estéticas e mergulhar com mais paixão nos dispositivos estéticos que faz com que seu cinema extrapole sensorialidade, cinismo e vigor. A narrativa fílmica ganha proporções singulares nas mãos do diretor espanhol. Ele faz o que quer com aquilo que recria, domina os planos e as relações espaço-temporais com uma inventividade impressionante.

Em Abraços Partidos, bem como em quase toda sua obra, Pedro Almodóvar busca algo que está além da verdade. Ele visa uma compreensão de elementos de significação que podem muito bem não se encontrar na verdade, mas em suas múltiplas representações e significados. Ele trabalha a farsa, a releitura do mundo. O que move seus tipos é a paixão, o desejo de desejar e ser desejado. Críticas sociais ácidas, cinismo e descrédito nas instituições sociais são marcas do cineasta. O mundo do cinema é, para ele, algo que está além de simples imagens. É algo que se encontra nas muitas camadas dramático-narrativas de seus longas. Almodóvar é um apaixonado cético e, ao mesmo tempo, um artista cheio de fé em seu ofício. Fé que vem da confiança que tem no potencial daquilo que cria.

Em seu novo filme, Almodóvar trabalha a fusão de gêneros e, ao mesmo tempo em que aborda essa mistura de registros, apaga as diferenças entre elas ao potencializar ao máximo a força da evolução de seu longa. Abraços Partidos se desenvolve como trama de mistério, como drama e como comédia. Mas as características de cada um desses gêneros se fundem e se apagam ao dialogarem entre si, retornando em seguida de forma fresca e original. A ilusão e o encanto daquilo que o diretor põe na tela aumentam os efeitos da narrativa. A história para Almodóvar é apensa um recurso para que possa trabalhar a relação muito mais complexa que extrai da dialética entre matéria e forma. Os dramas e tormentos do cineasta/personagem de “Abraços Partidos” são as situações iniciais para as manipulações sofisticadas e o desejo obsessivo de Almodóvar em recriar o mundo por meio de suas sensações e paroxismos representativos.

Em Abraços Partidos temos novamente a abordagem sensual dos corpos, a relação carnal em primeiro plano. Existe o fazer um filme dentro do filme. Vemos o registro do corpo, o extrair as texturas desses corpos. O assentamento em imagens do movimento sensual, as texturas de pele e as explosões de cores e movimentos. Há a relação tensa em se abordar algo de forma tão passional, as afinidades entre o criador e o objeto de expressão de seu ofício. A sensualidade de Penélope Cruz é a guia dos impulsos de sua personagem. Essa pulsão erótica que ela provoca nos tipos que a cercam leva o protagonista ao êxtase e a ruína, mas, ao mesmo tempo, deixa marcas profundas que ele só irá resolver com os recursos que o cinema oferece. O cinema entra aqui como meio físico, palpável. Como objeto salvador, como solução. É uma declaração de amor de Almodóvar ao seu meio. É no cinema que estão as relações humanas que interessam ao diretor. É no cinema que ele se determina e se abriga e, com isso, acaba por oferecer refúgio para todos nós.

Leia também:


Filme Partido