Tokyo!:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Fr/Japão/ Ale/ Coréia do Sul
Direção: Michel Gondry, Leos Carax, Bong Joon-Ho
Elenco: Ayako Fujitani, Ryo Kase, Ayumi Ito, Denis Lavant, Jean-François Balmer, Renji Ishibashi, Teruyuki Kagawa, Yu Aoi, Naoto Takenaka
Duração: 110 min.
Estréia: 27/11/2009
Ano: 2009


A Tóquio que deveria ser de mil sonhos.


Autor: Cid Nader

Escolhidos três cineastas para emitir suas opiniões "ocidentais" sobre Tóquio – é ainda a Meca da modernidade, o pensamento da velocidade, a surpresa travestida de quimono sob luzes embaralhadas nas tranças? -, e lá vamos nós, ansiosos, em busca de conferir um resultado que pode mais falar às nossas idealizações do que às nossas avaliações críticas sobre os trabalhos. Certa vez, ouvi alguém comentando a dificuldade que é a de trançar cabelos lisos e escorregadios como os das japonesas. Na realidade, o comentário referia a uma metáfora que dizia sobre aparências belas e de aspecto comum, mas com complexidades entranhadas fortemente - como é de se imaginar ser a da constituição do povo nipônico. As tranças significariam que para manter a unidade aparente, muito trabalho, muito manejo tinha de ser exercido para tal. Fios de cabelos representando antiguidade, tradição, religião, regiões geográficas complexas em suas diversidades. O aspecto encantador representava uma nação tão bela quanto absolutamente não comum.

Cá comigo, quando ouvi tal comparação, tal metaforização, imaginei a ideia de luzes emaranhadas em meio às tranças, querendo tentar ver o pais exótico e quase inexplicável - aos olhos de nós do oeste do planeta -, como um exemplo de tradição e ancestralidade, sob a ótica real de hoje em dia, que o apresenta como exemplo dinâmico de luminosidade, feérico ao extremo (principalmente em sua capital), veloz, brilhante. O átimo de observação das luzes e da correria capitalista, misturado, trançado, com as coisas de ontem e anteontem. É assim Tóquio? Representa, hoje, o que representou antes - principalmente por idealização e histórias -, e mais recentemente: na dinâmica, na luz, nas invenções modernas? Vale lembrar da explosão de confusões para nós de cá a cada vez que um daqueles países extremo-orientais se apresenta como a bola dinâmica da vez. Vale lembrar que tanto no cinema, quanto na apresentação de suas ancestralidades incomuns, e também quanto na modernidade inacreditável e luminosa, tais países têm substituído por vezes essa nossa ambição/desejo/Japão/Tóquio.

Creio que outro fator de marca forte da capital em nosso ideário tenha ganhado vincos e marca forte por ocasião das Olimpíadas de lá (1964), quando, para além da tela grande (principal "mídia" que a relatava ao mundo, tanto na antiguidade do século passado, quanto nos momentos de "ocidentalização", pós II Grande Guerra), via imagens de TV, percebeu-se a novidade que surgia forte, moderna e antiga (ainda se notavam mulheres de quimonos, ruas estreitas, sushi-bares, casas com papel-arroz no lugar dos vidros), nipônica no chão e iluminada por propagandas nos prédios. Capital, que havia sucumbido à destruição física imposta impiedosamente a ela pelos vencedores do grande conflito bélico – se bem que tenha sido forte alvo de investimento financeiro dos países capitalistas que o subjugaram, talvez por conta dessa conotação de desejo no desvelá-lo.

Portanto, por razões umas, ou razões outras, Tóquio sempre foi alvo preferencial a ser retratado pelos olhos estrangeiros, e essa mais uma investida, que resultou esse Tokyo, acabou por revelar-se tão desigual quanto é usual em trabalhos compiladores, quanto surpreendente pelo filmete de Michel Gondry (do qual não esperava quase nada), quanto normal pela estetização da loucura urbana empurrada na marra pelo esteta estranho, Leos Carax, quanto prazeroso pela recompensa já aguardada concluída por quem entende muito de cinema, Bong Joon-ho. Estranho, que a observação da cidade foi feita por viés que poderia ter sido emprestado de olhadelas a qualquer grande cidade do mundo. Eles observaram e retrataram uma Tóquio muito mais comum do que a imaginação costuma traçá-la.

Gondry é um cineasta muito mediano demais, normalmente, mas sua opção em filmar a cidade como um turista que não é tão turista, já que está por ali na tentativa de se fixar, de fazer a vida – como é o caso do jovem casal central que por lá aporta – em “Interior Design” se percebeu acertada, cumprindo à risca sua proposta, seu ângulo optado de observação. Filma de perto e de modo ligeiro as complicações no campo de se arrumar acomodações na cidade, e permite com que a essa opressão física, essa opressão da busca, ganhe corpo no estilo narrativo, emprestando o sufoco às almas das pessoas que buscam seu espaço. Gondry “ataca” o lado mais vilão da capital, não demonstra aquele desejo que me fez imaginar a digressão extensa que abre esse texto, mas realizou cinema correto. E isso me pareceu melhor do que tudo.

Leo Carax fez sucesso no cinema principalmente nos anos 80 e 90, quando surgiu – provavelmente um dos primeiros – com estética tão veloz quanto purpurizada (purpurinas que mudam de nuances conforme o tempo e se repensa em seus trabalhos), de forte apego ao que se fazia na publicidade, à época. Vale até lembrar que situações imaginadas por ele em “Les Amants du Pont-Neuf” (1991) foram copiadas por centenas de peças publicitárias que imitavam corridas, saltos, e manipulação da velocidade do filme. Um pouco dessa impressão ligeira é o que passa seu episódio em Tokyo, “Merde”. Tentando demonstrar agressividade contra o sistema e contra um modo de comportamento dos japoneses ante os estrangeiros; tentando falar dos resquícios da Guerra, e da incompreensão entre pessoas próximas; tentando fazer acreditar que ao filmar momentos com câmeras de segurança e tal, o que ele entregou foi um típico produto seu: de busca formalista que não empresta nada de novo ao cinema (já que ele se repete e o tempo menor de trabalho talvez impeça maior poder de contar: e há um belo, difícil e bem executado plano-sequência a não ser esquecido), e de manifestações humanas inconclusas.

Mas o trabalho que iniciou bem, se fecha maravilhosamente, e por um olhar que poderia ser atribuido a povos similares – pela proximidade geográfica -, porém tão distante disso quanto qualquer ocidental: uma fácil constatação para quem conhece um pouco que seja da multiplicidade “amalucada” da personalidade dos coreanos. O sul coreano Bong Joon-ho, observou uma complexidade de aparência moderna na capital japonesa, com jeito de quem vê tal processo acontecer na capital de seu pais, também: filmou um hikikomori – pessoa que se isola do mundo, dentro de casa, sem querer qualquer tipo de interação ou companheirismo – em Shaking Tokyo, que há dez anos se afastara do mundo urbano. Um fenômeno muito mais forte nesse novo oriente tomado pelas “obrigações” naturais de sua gênese, aditivado pelas 'obrigações” decorrentes do alinhamento ao capitalismo, ao modo ocidental de ser. Só que Joon-ho é coreano, e ao pensar em retratar isso em Tóquio, acaba emprestando ao filme um tanto da “insanidade calorosa” dos seus. Como cinema é o mais bem filmado de todos – raro ver tamanho domínio dos espaços confinados, e tamanho respiro nas poucas (e decisivas) vezes em que sua câmera ganha a luz natural. Como compreensão humana dessas matizes estranhas (aparentemente) e reais (dá para compreendê-las perfeitamente), mesmo observando o que seria um pequeno trecho das coisas, acaba acertando (sacode e é sacudido) de modo amplo e generoso no que se quereria ver num filme com tal título.

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