Cidadão Boilesen:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Chaim Litewski
Elenco: Documentário
Duração: 92 min.
Estréia: 27/11/2009
Ano: 2009


Com ênfase maligna ligada no máximo.


Autor: Cid Nader

Se há uma coisa bastante boa e instigante que faça alguém preferir documentários a outros tipo de realizações cinematográficas, é a possibilidade de se poder descobrir algum assunto novo. Se há coisa mais agradável ainda, é poder constatar a revelação de tal “fato novo”, quando ele estava embaixo de nossos narizes – ou no nome de uma placa de rua -, se oferecendo para ser conhecido. E mais “instigantemente agradável” ainda é perceber que tal coisa elucidada, sob nossos narizes, não faz parte de algum local obscuro dos recantos históricos de nossa criação, de nosso dia-a-dia, mas é originado de uma situação que pontua nosso viver cotidiano. É o que consegue o diretor Chaim Litewski com seu Cidadão Boilesen.

O fato de nosso cotidiano de onde ele resgatou os dados que foram transformados num documentário vigoroso – para dizer o mínimo – foram as torturas ocorridas no período da ditadura militar surgida com o golpe de 1964 (é ou não um daqueles que povoam nosso dia-a-dia, por mais jovens que sejam alguns, por mais alienados, sejam outros?). Mais especificamente ainda, resgatado dos porões da delegacia lá da Vila Mariana (bairro da cidade de São Paulo), que abrigaram, desde o nascedouro, a inacreditável “Operação Bandeirante” - sem querer adentrar nas explicações sobre o caso, já que o filme se encarrega de mostrá-lo com razoável fartura de informações, foi um ato criado pelos militares, onde, com mais ciência, mas não menos truculência, se montou um esquema de captura e tortura ao pessoal da esquerda que “teimava” em afrontar a ordem de força e pavor imposta.

Litewski começa o documentário com indagações bastante comuns sobre a origem de quem nomeou a rua Henning Boilesen. Indagações que passam de um teor quase brincalhão – por conta da ignorância dos moradores de lá quanto ao assunto -, para imagens de um corpo baleado, na sarjeta, sob um fusca, no ano de 1971. Entre indas e vindas bastante dinâmicas, o diretor começa a construir um painel que, se perceberá, levará o trabalho para uma mão única de apreciação e empatia a um lado ad questão – só que isso não se dá por inveracidade, mas sim por um amontoado de fatos que vão se ajuntando de tal forma que quase nada, ao final, dará brecha pata questões outras. Com “idas e vindas bastante dinâmicas”, quero dizer que há uma boa e grande alternação de fatos e dados: que remontam à terra natal de Boilesen – talvez o ponto mais fraco e dispensável do filme, principalmente no momento em que se tenta uma superficial avaliação psicológica dele num fato ocorrido na escola, em sua infância -, passam por uma quantidade bastante apreciável de entrevistas e depoimentos recentes (vindas de variados lados da questão), vasculham depoimentos , escritos e narrações daquele momento (narrações, inclusive, imagéticas, com um belo estoque de imagens de Boilesen em meio dos militares), e, também, com a intercalação de filmes ficcionais que tratam da ditadura (que até um dado momento parece pirotecnia dispensável, mas que ganha fluência e facilita um pouco mais compreender os fatos reais).

Seria de se questionar o quanto de importante pode ter um trabalho desses pensando-o de modo mundial – saindo de nossos quintais. Mas esse é um “risco” que correm quase todos os filmes documentais, e não fato que não pode ser considerado quando se percebe o quanto de elucidação ele conseguiu emprestar aos donos desses quintais. O diretor parece ter sofrido um pouco com excessos de dados, e o filme podia até correr o riso de ser incompreensível para os mais jovens daqui, que seja. Mas a partir de um certo acumulo, a partir do “funcionamento” da alternância entre os filmes ficcionais e os “concretos”, o documentário “pega” e passa a funcionar para todos. Um senão quanto à utilização eterna de fotos do documentado com cara de alguém suspeito de “maldade” desde o berço. Um grande elogio à “sorte” na utilização do depoimento final do filho de Henning, tirando o trabalho do patamar “simples” de obra caseira e política, para inseri-lo naquela esfera que trata das interações humanas: da alienação quanto às atitudes dos entes mais próximos.

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