Corpo do Rio:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Izabel Jaguaribe, Olívia Guimarães
Elenco: Documentário
Duração: 84 min.
Estréia: 20/11/2009
Ano: 2009


Variações sibre o tema


Autor: Cid Nader

Há sempre uma dúvida que me atormenta quando vejo cariocas falando de si mesmos como o centro referencial de todo o país. Para tal, são usados signos como a malemolência do povo local, o bom papo, o bom caráter, a beleza “insuperável” das (e dos) cariocas, afora os traços únicos e incomparáveis dos traços geográficos que compõem um visual a ser “invejado' e desejado como único e incomparável. Dá para perceber por esse meu preâmbulo que esse auto-centrismo do povo de lá beira problemas de facetas egoístas, e de olhar para si “mesmos com se nada mais fizesse sentido ou valesse comentários” com garga meio doentia. “O Rio é o Brasil idealizado”; “o Rio é o Brasil perfeito”; “o Rio é o Rio afinal: pra que mais?”.

Bem, reducionismo da imagem própria pior ainda é quando se referem a si e seus corpos biológicos (os humanos) como um fator de importância inquestionável (único), e esse novo trabalho de Isabel Jaguaribe, associada a Olívia Guimarães ameça fortemente – principalmente em seu início – beirar o caricatural explícito desses resumos que citei acima de essências cariocas. Até tem um pezinho fincado nesse modelo de auto-observação, mas, para o bem – e muito para o bem – a maior parte de seu percurso consegue representar um documentário que fala a mais do que simplesmente “corpos cariocas”, para estender as possibilidades captadas e oferecidas ao “corpo geográfico” da cidade, sem que tenham sido omitidas as peculiaridades (o caráter) das regiões perscrutadas. Não sei até que ponto elas estiveram conscientes do “modo” (rumo) que o filme tomou. Ao discutirem inicialmente individualidades, preparam terreno para a localização física das pessoas entrevistadas, fazendo entender o quanto de importância seus ambientes e seus conhecimentos (entenda-se aí, educação familiar, religiosa ou formal; tanto quanto entenda-se impressões e caráter pessoal, exposições de “pedaços” bem sedimentados de personalidade) eram importantes.

As virtudes surpreendentes de uma obra que me parecia – confesso que muito pelos pré conceitos em mim embutidos, mas também um tanto pelo trecho inicial indeciso de Corpo do Rio - fadada ao “nada a dizer, muito a mostrar”, estão localizadas, principalmente, numa amplidão de possibilidades buscadas de gama tão diversa quanto “inocente de erudição”. A partir do instante que se percebe a proposta um tanto mais séria, percebe-se, também, que existe uma inocência interessante na composição técnica do trabalho, bastante salutar: já que o perigo da opção estética está descartada como a principal a ser explorada, surge o perigo dos depoimentos “eruditos” e científicos em busca de organização. O filme, afinal, busca depoimentos e vistas por toda a cidade, por todo seu povo, e fazer disto um evento sociológico ou antropológico chato, nada mais do que um passo. Mas as diretoras foram honestas ao deixar que as “falas e pensamentos” fossem o tempo executados pelos corpos que deram origem à idéia do filme. As pessoas emitem suas opiniões e jamais são questionadas ou induzidas a conclusões mais complexas do que a realidade delas. Também nãpo existe a busca dessas tais opiniões mais complexas via “entendidos e estudiosos”, e com essa opção, mais uma virtude pode ser acrescentada ao resultado.

Vê-se o corpo da cidade, seus rincões, suas “estruturas mentais” (modo de agir, modo de músicas localizadas, modo até de religiosidade), e a isso fornece-se mais dinamismo via imagens de corpos de gente, de falas de gente, de atos de pessoas. Poderia ser surpreendente e forte de modo a desmontar totalmente meus preconceitos não tivesse outro de seus pés fincado na elucidação estética – principalmente nos momentos de passagem, nas costuras – do gingado carioca. Aí o filme vai um tanto ao encontro da possibilidade ruim da proposta (da qual escapou quase garbosamente): takes de danças (funks, samba...) repetidos em câmera lenta, e sob a sustentação de uma mesma passagem musical, não coadunam com a seriedade de entender das coisas de lá pela “boa simplicidade” utilizada. Um certo narcisismo pictórico desnecessário contamina esses trechos de ligação e podem impor dúvidas sobre se os acertos citados anteriormente foram fruto de bom senso ou obra do acaso. Após o medo inicial, e o embarque no filme, prefiro continuar acreditando nos acertos, por virtudes das diretoras. Trechos ruins e equívocos são passíveis de ocorrer mesmo dentro de obras já fechadas, e os daqui – prefiro assim – foram escorregadelas.

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