Topografia de um Desnudo:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Teresa Aguiar
Elenco: Lima Duarte, Ney Latorraca, José de Abreu, Gracindo Júnior
Duração: 90 min.
Estréia: 20/11/2009
Ano: 2009


Como sub-aproveitar grandes estrelas.


Autor: Laura Cánepa

O cinema brasileiro profissional sabe ser mesmo surpreendente em sua descida ao abismo. Sempre que pensamos estar superando um certo ranço amadorístico, surge uma produção absurda como esta para nos lembrar de que mesmo atores consagrados como Maria Alice Vergueiro e Lima Duarte podem ter seu dia de Rambú da Amazônia.

Topografia de Um Desnudo, longa de estréia da experiente diretora de teatro carioca Teresa Aguiar, é um filme amador inteiramente constrangedor, mas realizado com diversos apoios oficiais que fazem dele talvez o maior mico brasileiro do ano, sobretudo por contar com elenco estreladíssimo que, além dos já mencionados Lima Duarte e Maria Alice Vergueiro, traz também Gracindo Jr, Ney Latorraca, José de Abreu e outros globais.

O filme, baseado em peça de teatro homônima, retrata os eventos que escandalizaram o Brasil no começo dos anos 1960, quando dezenas de mendigos foram assassinados no Rio de Janeiro a mando do governo proto fascista de Carlos Lacerda. Para ambientar melhor a situação no ambiente de classe média, o filme "embala" os fatos numa historinha melodramática sobre uma colunista social carioca (interpretada por Ariane Porto, que é também roteirista do filme) em crise de consciência e que, na falta de coisa melhor para fazer, decide ficar amiga dos mendigos com caras de intelectuais que moram num lixão e tocar uma investigação suicida como se estivesse indo à feira.

Então, enquanto assistimos à previsível lambança que nossa amiga produzirá, acompanhamos as interpretações caricatas de policiais, secretários de estado, donos de jornal, amantes de dono de jornal, jovens idealistas e empresários inescrupulosos, num esquema tão velho que só não dá sono por causa do ridículo de suas falas, sempre prontas a explicar o que está acontecendo com diálogos supostamente bombásticos e genéricos do tipo: "O Brasil não pode continuar assim, temos que fazer alguma coisa!". "Você acha que eu não tenho consciência social? Eu sou uma jornalista!"."Se você não assinar essa matéria, estará destruindo sua carreira". "Não posso ficar aqui bebendo e lembrando daquele corpo estendido no chão no meio do lixão" e por aí vai.

É quase inacreditável que uma história tão interessante de nossas páginas políticas e policiais ganhe uma versão cinematográfica tão absolutamente sem importância. Ainda que a produção seja até competente para escolher o que será colocado em frente à câmera, tudo é mostrado de maneira careta e teatral no pior sentido, isto é, com uma constante declamação de textos que desejam, mas não conseguem, provocar algum tipo de empatia ou indignação do espectador.

No final das contas, o grande barato do filme acaba sendo ver grandes atores completamente soltos, sem qualquer sombra de direção, fazendo teatro amador supostamente engajado em frente às câmeras de cinema.

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