Polícia, Adjetivo:


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Original: Police, Adjective
País: Romênia
Direção: Corneliu Porumboiu
Elenco: Dragos Bucur, Vlad Ivanov, Ion Stoica e Irina Saulescu
Duração: 115 min.
Estréia: 20/11/2009
Ano: 2009


Quando a forma leva à matéria.


Autor: Fernando Oriente

E eis que o badalado novo cinema romeno tem seu primeiro grande filme. Polícia, Adjetivo, de Corneliu Porumboiu é um longa obrigatório em que tudo funciona, um típico exemplo de como uma construção formal primorosa pode potencializar a matéria que constitui a proposta da obra. Existe uma procura objetiva pela realidade, um anseio formal e material pela recriação objetiva do real que poucos cineastas conseguiram. O filme faz lembrar (um pouco) Maurice Pialat, o que é muito, já que se trata de um dos maiores realizadores da história. A comparação com Pialat vem exatamente dessa abordagem direta do mundo cotidiano desencantado. Não existem ideologias, nem grandes aspirações existenciais. No longa de Porumboiu, ao contrário do “Police” de Pialat, o protagonista Cristi segue de acordo com seus conceitos éticos, o que torna-se uma frágil garantia moral para que possa se auto determinar em meio a uma apatia generalizada que esmaga as existências entediantes e desiludidas de todos em seu meio. Essa recusa em abandonar-se por completo e prosseguir mecanicamente em uma realidade monótona em que nada de excepcional existe para quebrar o marasmo entra em conflito com a banalidade de suas ações cotidianas.

O jovem policial Cristi passa seus dias seguindo adolescentes que são suspeitos apenas por fumarem haxixe. Um crime que não é crime, e sim um detalhe reacionário dentro de um código de leis que o personagem discorda e sabe ser obsoleto. Não existe glamour em suas ações policiais, ele é um simples funcionário de uma máquina burocrática enferrujada. Ele é um adjetivo, nunca um substantivo com possibilidades subjetivas. É essa situação de suspensão de um corpo de Estado vazio que Cristi enfrenta quase que resignado. Ele não sabe até quando suas boas intenções e suas preocupações de consciência poderão resistir aos mecanismos que impulsionam as ações corporativas infundadas dos quais depende para viver. Seu mundo é ordinário, banal e sem a menor possibilidade de escape. Os semblantes de todos no filme carregam o desencanto de viver. Ao explorar o tempo e o espaço das ações do protagonista, Porumboiu constrói um cotidiano de aprisionamento angustiante, em que as emoções reprimidas são sentidas no tédio de viver. A contenção emotiva do longa é presente em cada fotograma, a sensação de inação é contagiante.

São planos primorosos em que o distanciamento da câmera capta em máxima significação todos os atos, todos os movimentos de uma vida sem propósitos concretos. O distanciamento dos planos abertos permite uma contextualização intensa do ambiente em que as ações se desenrolam. O quadro se estende para tudo o que está fora dos planos. Vermos um recorte em movimento da realidade recriada pelo diretor. A espera, a sensação do arrastar inútil das horas é traduzida preciosamente na duração desses planos. Porumboiu intercala planos-sequência com takes mais curtos (embora arrastados). Mescla o ritmo dessa espera e desse tédio que angustia de forma recalcada o protagonista. O mal estar de Cristi é traduzido em imagens e potencializado pela brilhante captação de ruídos e sons diegéticos presentes em cada cena. Polícia, Adjetivo é um filme que se confirma grande em todos os seus detalhes. Porumboiu domina cada recurso e possibilidade que o fazer cinema oferece.

A contextualização sensível da realidade de Cristi é ampliada pela maneira como o longa o acompanha em suas principais atividades. A câmera entra em sua casa e disseca seu cotidiano com a esposa, capta o tempo se esvaindo lentamente enquanto a convivência doméstica do policial transpira o desencanto do mundo em que vive o casal. A frieza e a má vontade imperam na delegacia, onde acompanhamos o protagonista em suas caminhadas por corredores, entrando e saindo de salas e falando com colegas que não escondem seu tédio nessa má vontade rancorosa com que executam as tarefas mais simples. A tocaia que Cristi faz aos suspeitos é registrada com um distanciamento gélido em que o despropósito da ação dialoga com o aspecto corriqueiro das ruas por onde ele perambula em meio ao arrastar das figuras que passam a sua volta.

Para tornar o filme ainda mais arrebatador existem duas sequências antológicas em Polícia, Adjetivo. A passagem quando a esposa de Cristi lhe dá explicações gramaticais que no fundo definem sua posição no mundo e a sequência em que os arroubos éticos do protagonista são confrontados por seu chefe, que lhe expõe de maneira primorosa e cruel a lógica castradora dos mecanismos burocráticos a que o jovem policial encontra-se amarrado. Em seu segundo longa, após receber a Camera D’or no Festival de Cannes de 2006 por “À Leste de Bucareste”, Corneliu Porumboiu é nome certo entre os grandes cineastas da nova geração. Resta ver e rever esse excepcional Polícia, Adjetivo e aguardar ansiosamente por seus filmes futuros.

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