Hotel Atlântico:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Suzana Amaral
Elenco: Júlio Andrade, Mariana Ximenes, João Miguel, Gero Camilo
Duração: 100 min.
Estréia: 13/11/2009
Ano: 2009


Prova de conhecimento de causa.


Autor: Cid Nader

A veterana Suzana Amaral volta à ativa novamente. Quase como uma diretora bissexta. Neste Hotel Atlântico, aparentemente, ela se distancia de sua essência pé-no-chão, de falar de personagens em busca de algo concreto, em busca do sentir-se humano dentro da sociedade constituída. Aparentemente, já que, quando se cessa o tino da lógica a qualquer preço que existe dentro de cada um de nós, quando se põe na balança as vidas que transitam durante a exibição do filme, vemos que ela continua falando de personagens da vida, como é seu costume, sempre e sempre – nas carreira de poucos filmes.

Falar em personagens é notar o quão bem Suzana sabe dirigir seus atores: o quanto ela consegue extrair de boas atuações. O filme ganha muito com isso, já que é uma construção sobre não linearidade literária, sobre não temporalidades definidas, sobre não locais exatos. Quando se constrói um trabalho sobre idéias menos decifráveis ao primeiro olhar, é necessário o bom adequamento interpretativo e – aí valendo para qualquer filme – bons arranjos técnicos e estéticos. Bem, vale novamente elogiar a diretora pela feliz escolha de seu fotógrafo para o trabalho, José Roberto Eliezer, que dominou os ambientes e, sobretudo, os caminhos por onde cada personagem transitaria, com detalhes de matiz particular, o que se fez com que a não compreensão entregue facilmente se fizesse “facilitada”: vale lembrar do “emblemismo” oferecido aos olhos quando Júlio Andrade (o ator de Beto Brant em “Cão Sem Dono” – com até um certo quê no modo do personagem imaginado para este se repetindo) inicia seu trânsito pelo pais não explicitado, não nomeado, após observar um navio aportando sobre águas calmas; vale lembrar o modo como filmou os, e “arrancou coisas” dos, olhos da polonesa que age rapidamente com Júlio durante a viagem de ônibus em direção ao sul; ou o belíssimo momento em que João Miguel transfigura (para o bem, para a felicidade plena) sua face ante a primeira visão do mar – isso dentre várias outras jóias obtidas.

E só para elogiar novamente a veterana diretora, resgatando uma verdade que se repete em todas as suas obras (e, cada vez mais percebe-se que o trabalho atual talvez não esteja tão distante dela no seu comum), é incrível o belo domínio do espaço que ela consegue executar com sua determinação e mão firme: os planos idealizados não são em nenhum momento dispensáveis, tanto quanto não são supérfluos ou superficiais; cada ângulo imaginado contribui verdadeiramente para o encadeamento finalizado na montagem (Idê Lacreta), para a fluidez, para a “compreensão” narrativa.

Dentro das impossibilidades de explicar uma história que não está para ser explicada mesmo – muito mais para ser intuída -, Hotel Atlântico conduz seu personagem ao mundo. Fala da busca sensorial de matiz particular de alguns seres humanos, e faz com que o protagonista embrenhe país adentro para tal. Ele não se explica, tanto quanto não busca explicações. Somente transita. E cruza outros seres. A maioria fincada nos seus rincões, fisicamente, mas com evidentes “vontades” de fugas, de escapes, de tentativas – o que Júlio faz com o corpo, e que os outros (quase todos, já que um também escapará fisicamente) -, realizadas somente pela possibilidade de idealizá-las, imaginá-las com a passagem em cada local de quem as fez (nosso protagonista). Ou não? A outra beleza maior do filme (afora a capacidade de Suzana e trupe) – talvez virtude do texto literário no qual foi baseado – está na indefinição das certezas que jamais se confirmarão. Um corte de cena, com um retorno a um certo trecho inicial, talvez defina algo mais preciso à fuga de Júlio. Ou não! Outro corte – aí físico -, talvez já tivesse indicado o quanto o desejo pode ter sido “colocado em prática”.

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