No Meu Lugar:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Eduardo Valente
Elenco: Dedina Bernardelli, Márcio Vito, Raphael Sil, Nível Magno, Luciana Bezerra.
Duração: 105 min.
Estréia: 13/11/2009
Ano: 2009


Filme de gente que sabe fazer cinema.


Autor: Cesar Zamberlan

O filme No Meu Lugar, de Eduardo Valente (crítico e editor da revista Cinética), participou de Cannes esse ano e Valente tem uma estreita ligação com o festival francês, pois venceu lá em 2002, o prêmio de curtas do Cinéfondation, curtas de universitários, com “Sol Alaranjado”, seu primeiro trabalho.

Conheço toda a obra de Valente, seus três curtas, e revi No Meu Lugar em Paulínia, após tê-lo visto a primeira vez no Cinesesc, no Festival Latino. Diferente de “Sol Alaranjado” que é um curta tocante e de “O Monstro” que é um curta que trabalha com um esvaziamento de qualquer tipo de impacto emocional, o longa de Valente fica no meio do caminho. E se me emocionou muito numa primeira visão, perdeu um pouco o impacto numa segunda, na qual os mecanismos do filme, sabido o seu final, se revelaram mais explicitamente. Coisa do ver cinema, do pensar sobre os filmes e de querer vê-los, em alguns casos, mais de uma vez.

No Meu Lugar tem uma estrutura dramática que trabalha o multi-plot, mas não de uma maneira convencional. As três histórias do filme estão ligadas por um acidente que é o vórtice narrativo do filme - vórtice seria, aliás, o título do filme. Esse acidente configura o lugar do filme, lugar que os personagens ocuparam num determinado instante ou que ocuparão e que se tornou ou tornará modificador da trajetória destes. Mas, se o lugar é o mesmo, o tempo não.

Crítico, cinéfilo e cineasta, Valente tem uma forte cultura cinematográfica e um cuidado rigoroso ao trabalhar a forma de seu filme. Quando revi o filme, foi possível observar melhor esse cuidado devido à excelente projeção do festival de Paulínia. Cuidado, por exemplo, com a luz do filme que deixa os personagens - um pouco menos a família dona da casa onde ocorre o acidente, a mais afastada do caso, se pensarmos no seu vórtice -, num limite entre a luz e a escuridão, que é muito representativa do estado dos personagens e do lugar que ocupam. Se a tragédia é o foco irradiador do ponto de vista narrativo do filme, seja ele para frente ou para trás, parece também ponto irradiador dessa luz sobre eles, se levarmos em conta o tempo de afastamento dos personagens em relação ao fato que modificou ou modificará suas vidas. O acidente, porém, não é tratado de maneira sensacionalista, como certos trabalhos que se deliciam com o sofrer dos personagens. Não, No Meu Lugar não é isso. O que importa são as pessoas afetadas, como são afetadas, mas não o que as afetou.

E esse olhar sobre as pessoas é de uma humanidade e de um respeito sem igual. E para isso, Valente deixa de lado qualquer tipo de invenção na direção para abrir a cena para os seus atores. A câmera e o ritmo do filme é todo dado pela dramaturgia, pela forma como os três núcleos que constituem a história ocupam o seu lugar naquele universo. Ainda sobre o ritmo do filme, na coletiva de imprensa, no dia seguinte a exibição do filme no Festival de Paulínia, Valente citou que não havia porque dar um ritmo diferente a história que se passa na favela e outro a que passa na casa da família de classe média. E questionou essa visão da favela como um lugar onde as coisas acontecem mais rápido, com um outro dinamismo.

No Meu Lugar tem alguns momentos geniais, cenas antológicas como a do pai e da filha na praia à noite, buscando uma saída para o problema deles. Assim como a cena do menino achando o buraco da bala embaixo do piano e a cena do encontro do jovem na favela com o tio, cujo diálogo é simplesmente genial. Outra coisa que faz o No meu lugar crescer muito é a trilha sonora e a forma como Eduardo a usa para pontuar o ritmo do filme.

O que me incomoda um pouco, e, sobretudo, após vê-lo novamente, é a inserção de algumas explicações que servirão para amarrar as três histórias, essas pistas acabam parecendo óbvias e até desnecessárias – se bem que nos debates muitas pessoas dizem que acharam o filme confuso, coisa que ele está longe de ser. Outra coisa é o tom, me parece que o respeito aos personagens e a busca, acertada, de não torná-los emocionais e emocionantes demais, os torna um tanto quanto frios em determinados momentos que precisam de uma carga dramática maior. De uma forma ou de outra, No Meu Lugar é um filme de gente que sabe fazer cinema e um dos melhores filme do ano até agora.

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