Diário de Sintra:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Paula Gáitan
Elenco: Documentário
Duração: 90 min
Estréia: 11/12/2009
Ano: 2007




Autor: Cid Nader

A diretora Paula Gaitán, dirigiu, escreveu e fotografou esse belo documentário experimental - experimental num sentido bem digno do termo - sobre a passagem de seu marido, Glauber Rocha, por Sintra, em Portugal, quando de seu exílio. Dizer que o filme é uma busca de um registro histórico daquele momento é simplificar demais, reduzir a quase nada a bela idéia que ela consegue concluir quando se constata o trabalho concluído. Não poderia ser comum um trabalho que fale do diretor baiano – não têm sido comuns os diversos trabalhos que falam de Glauber a que tive oportunidade de ver ultimamente; com buscas extremadas, com idéias pouco comuns, como se todos que falam dele tenham resolvido ser desonroso retratá-lo através de linguagem comum, edição comum, narrativa comum. Mas Paula diferenciou, acabando por entregar um dos mais belos de todos que vi. Foi mulher dele, mãe de alguns de seus filhos, e tamanho nível de proximidade parece ter-lhe "oferecido" uma autoridade especial.

Quando o documentário inicia, uma tentativa com fotos do diretor jogadas ao esmo chegou a disparar um sinal de alerta – pensei que o filme talvez estivesse por investir em uma tentativa poética que poderia revelar-se sem tazão, e próxima de um experimentalismo vazio. Experimentalismos são o que de melhor o cinema pode tentar, mas quando são ocos, só por forma, só para tentar repetir estilo, acabam por se tornar praga das mais indesejáveis. Porém, o episódio das fotos acaba por ser um dos fios condutores (sim, o filme tem vários fios) mais belos do cinema reverencial atual. Gaitán conduz a imagem de seu marido pelo interior daquele Portugal onde ele se refugiou, perguntando às pessoas comuns se conheciam a pessoa da foto. As respostas denunciam o ser humano em uma de suas essências: o interior de Portugal não conhece o grande artista marginal, mas a grande alma da aldeia quer reconhecer, quer achar que ele é alguém próximo ou já visto; as pessoas não negam simplesmente, tentando achar significado para aquela figura estampada em papel filme; e isso é belo, humano; tanto quanto é belo perceber que a ignorância quanto ao artista talvez fosse o que ele desejaria, com a contrapartida ideal de ser reconhecido como alguém da terra, o "próximo", o comum (que brada, conclama, reclama e realiza, sim, mas brotado do comum, do todo, do povo).

Afora essa busca lúdica das razões e dos locais por onde ele andou, o filme o mostra (o local, Sintra e seu entorno) como algo quase fruto do imaginário. Para onde a câmera é apontada, lentes capturam beleza e "interioridade"; a disposição física local faz perceber que ali alguém se torna "somente mais um" alguém qualquer – o que já denotavam as opiniões das pessoas que tentavam reconhecer o ser na fotografia. É orgânica essa "conjuminação" da ignorância quanto à importância dele, e da ignorância em que ele mergulhou, com a escolha de tal local físico como abrigo. E o filme, que começa assustando com a probabilidade "imaginada" por quem se antecipar, vai, aos poucos, se construindo bastante fluido: bastante crível e compreensível. As fusões das imagens captadas em digital e 16mm, com as de Super 8 originais da época (aliás lindas, familiares, reconfortantes, com os filhos e atitudes comuns - a busca de Glauber por lá, afinal), são tão bem realizadas, o patamar de similaridade nas texturas é tão adequado, que o filme tem seu ritmo absolutamente facilitado (talvez, até, através de uma esperta compreensão de deterioração natural do material antigo). Essa fluidez obtida, junto com a narração de trechos literários, acaba por gerar um efeito quase hipnótico, resultando uma constatação final de que Paula Gaitán entregou um dos mais belos trabalhos dos últimos tempos – e sem medo do riso, do carinho, do interior dos acontecimentos de um lar. Emocionante.

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