À Procura de Eric:


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Original: Looking for Eric
País: Ing/Fr/It/Bel
Direção: Ken Loach
Elenco: Steve Evets, Eric Cantona, Stephanie Bishop e Lucy-Jo Hudson
Duração: 117 min.
Estréia: 06/11/2009
Ano: 2009




Autor: Cesar Zamberlan.

Uma amiga que viaja o mundo todo e há anos mora em Londres diz que não há povo mais solidário que o londrino. À Procura de Eric.

Com uma carreira bastante irregular, dividida entre filmes históricos (caso do melhor deles, “Terra e Liberdade”) e filme sobre dramas pessoais (caso de “Meu nome é Joe”), a carreira de Ken Loach é bastante desigual, mas marcada por algumas características claras como a narrativa fluida e sem grandes truques, com ênfase à construção de personagens sempre bastante carismáticos.

A novidade nesse novo filme é que Loach abre espaço para a fantasia e resolve os dramas pessoais do seu personagem, o adorável carteiro Eric, a partir da amizade dele com outro Eric, o famoso Eric Cantona, um dos jogadores mais brilhantes e polêmicos que já passou pelo futebol inglês. Só que essa amizade é imaginária, fruto da paixão do carteiro pelo time do Manchester.

A construção desse universo fantasioso permite que Loach dê ao filme outro tipo de tratamento, muito mais leve, ainda que continue tratando de questões sérias e políticas. Desta forma, aproxima o espectador do personagem oprimido por uma série de problemas familiares com uma empatia que talvez jamais tenha imaginado no seu cinema.

Entre os créditos finais do filme, Loach insere um depoimento de Cantona à imprensa após o jogador ter esmurrado um torcedor na arquibancada do estádio, episódio que o deixou afastado por nove meses do futebol. Nele, Cantona diz uma única e enigmática frase: “Quando as gaivotas seguem um barco pesqueiro é porque pensam que os homens vão atirar sardinhas ao mar”.

O humor nesse filme de Loach serve mais ou menos como as sardinhas de Cantona. Elas trazem para o universo de Loach, antes tão denso, elementos cômicos e facilitadores para a absorção da crítica social que seus filmes sempre trazem.

No caso de À Procura de Eric , o que se procura é uma forma de corrigir erros do passado e sobreviver enquanto individuo numa sociedade que não abre espaço para os fracos e cujo poder é medido pelo calibre das armas e pela capacidade de controlar aparatos tecnológicos. Cantona é quem dará a resposta ao carteiro, lembrando que sua melhor jogada não foi um gol, um ato individual, mas um passe. Entra em cena então o time de Eric: os amigos carteiros. E com eles em cena – são impagáveis -, o filme ganha força, a força do coletivo. Com eles em cena, Eric se torna forte. A mensagem de Loach e Cantona parece óbvia, mas numa sociedade tão individualizada e alienada, é extremamente oportuna.

Outras questões menores, mas não menos interessantes no filme, são as relações do antigo torcedor de futebol com o futebol moderno, uma indústria capitalista ao extremo como o próprio cinema.

Voltando à metáfora de Cantona, a amizade e a solidariedade continuam as mesmas e Loach as faz emergir e ganhar a tela; o que muda, são as sardinhas.

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