Alô, Alô, Teresinha!:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Nelson Hoineff
Elenco: Documentário.
Duração: 90 min.
Estréia: 30/10/2009
Ano: 2008


Desumano - pra dizer o mínimo.


Autor: Cid Nader

Se há coisas execráveis no mundo do cinema creio sempre que deveriam receber alerta máximo por parte de quem venha a escrever e fazer considerações sobre elas. De preferência, textos que poderiam ter luzes piscantes e alarmes com choques a adorná-los, tendo como intenção inequívoca afastar incautos e inocentes possíveis espectadores. Para quem vê a extensa ficha profissional de Nelson Hoineff em seus tempos de jornalista e diretor de emissoras de TV, fica bastante complexo imaginar as razões que o motivaram a fazer um documentário tão desumano (e estou usando o termo “desumano” para me abster de usar expressões chulas e rasteiras, que seriam bastante apropriadas para definir em poucas palavras as sensações que o trabalho deixa) quanto é este Alô Alô Teresinha. Recentemente ele fez “Caro Francis”, o qual não vi, mas que mereceu um texto do companheiro Cesar Zamberlan aqui no site, e ao qual recorri para tentar intuir algo mais sobre a carreira cineasta de alguém tão conhecido no mundo jornalístico-televisivo: parece ter sido outra pessoa a dirigir o trabalho no qual é esmiuçada a figura do grande Paulo Francis; parece que há respeito; parece que há a execução de cinema.

Começando pelo cinema: Hoineff não respeitou parâmetros e limites da arte neste seu trabalho que fala de chacretes, ex-ídolos, ex-pretensos-ídolos, juntando todos, “gente”. Sabendo – com certeza sabia – estar com o domínio das rédeas da “máquina cinema”, sabendo o que pode resultar quando manipulada com má intenção e sacanagem de espírito, sabendo que a maioria das pessoas se entregam de corpo e alma quando a câmera é disparada (e crentes na “honestidade” do que fará o disparador com as imagens e sons obtidos – sem que isso signifique passadas de mãos nas cabeças, ou manipulações evitando verdades constrangedoras, quando as há), sabendo que o cinema é a arte que pode e vai resultar um trabalho com a cara e desejos do diretor, o que se vê a cada frame do trabalho é um show de humilhação e “brincadeiras” com almas que se entregaram confiantes na justeza da arte.

A manipulação dos dados – onde chacretes contam casos de amor, de traição, coisas de si e de outros; onde ex-calouros falam de sua obstinação pura (sim, pura, no caso de estarem naqueles momentos se entregando ao “Velho Guerreiro”), obstinação que sempre foi acalorada pela possibilidade da lente da câmera (TV) disparada e reveladora ao mundo, ou de sua única chance; onde ex-famosos vêem a oportunidade de novamente voltarem ao reconhecimento; onde até famosos se apresentam desarmados pensando estar contribuindo para um trabalho honesto (e digo que falta honestidade mesmo) -, os cortes, os ângulos, a edição ligeira e desmembrada (penso que ele dirá de homenagem ao formato dos programas da televisão), tudo que é feito nos tempos atuais, parece ter tido um descompromisso humano terrível, e confeccionado para fazer chacota, com o poder que somente um diretor tem: poder ao qual com certeza se entregaram os entrevistados, na esperança de correção e decência de quem tinha tudo nas mãos. Já no quesito cinema, o diretor se mostrou um aproveitador e manipulou me busca da ofensa, que resultaria no riso fácil e escachado.

Tal riso parece ter sido alcançado no CinePE, com premiações e afins. Uma pena. Uma força para as más intenções. E não me venha falar o diretor que fez o que fez com os personagens que se apresentaram a ele, travestido e espiritualizado de Chacrinha, chacoteiro como tal, já que ao programa se dirigia quem queria, sabendo que seria alvo de irreverência galhofeira. Bem diferente do que ele fez em seu filme, ao explorar a angústia de almas esvaziadas de quem já passou por “momentos de fama”, de exposição, e que imaginaram estar participando, no mínimo, de algo que estaria sendo para homenagear: ou que buscavam novamente seu momento de fama perdida. O filme, no que concerne a depoimentos, é humilhante e desumano, e, para fechá-lo visto como manifestação cinematográfica, desleal.

Como trabalho de resgate documental assombra pela quantidade informações à mão disponibilizadas a ele, com facilidade (tanto quanto é assombroso ver a enormidade de artistas ainda na ativa e com sucesso se apresentando para o filme) que me parece ter sido concedida por conta de seu passado jornalístico, e reconhecimento junto aos meios e aos astros. Mas até aí dá pra questionar o obtido: o amontoado editado e costurado não consegue linearidade visual: as imagens são atravancadas e momentos de má qualidade visual são utilizados; além do mais, o constante ir e vir, passado e presente, não contribui para o fluxo narrativo adequado e esperado para trabalhos documentais. Parece que tantas possibilidades de utilização sucumbem ante a expectativa do diretor em concluir um trabalho que teria como maior chancela a avacalhação dos tipos.

Não dá para me estender sobre quesitos técnicos se, enquanto escrevo, imagens do filme me vêm à cabeça: lembro da chacrete que se apresenta nua em público por óbvia solicitação (ou indução das lentes) do diretor; lembro de Nelson Ned constrangido e bem pouco a vontade; lembro que, apesar de o diretor dizer que estava imbuído do espírito do velho apresentador, nunca o filme se “mal-tratou”, se auto-ironizou, se viu como obra de palhaço (e Chacrinha se via como tal); lembro de algumas fofocas utilizadas para fazerem mal; lembro de poucas situações que seriam espontâneas em pessoas de “bem com a vida”. Nelson Hoineff manipulou vidas, maltratou espíritos esperançosos, fez um dos filmes mais enojantes que já vi.

Leia também: