FADOS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Espanha/Portugal
Direção: Carlos Saura
Elenco: Documentário
Duração: 85 min.
Estréia: 16/10/2009
Ano: 2007


Irregular.


Autor: Laura Cánepa

Quando se pensa sobre filmes que tratam da música e da dança ibero-americanas, o nome do diretor, roteirista e cenógrafo espanhol Carlos Saura é possivelmente o mais lembrado, seja por filmes como "Carmem" (1983) e "Bodas de Sangue" (1981), que traziam a marca da música e da dança flamencas, seja pelos seus estudos cinematográficos sobre o "Flamenco" (1995) e o "Tango" (1998) na década passada.

Não por outra razão o nome de Saura está colado ao título do filme na divulgação do longa-metragem Fados, realizado em 2007 e que só agora estreia no Brasil. A presença do seu nome parece legitimar, através do fechamento de uma "trilogia sauriana" com os filmes dos anos 1990, uma proposta institucional do governo português de apresentar o fado como um estilo musical influente e influenciado pela arte de suas colônias.



Muito bem. A idéia é boa. O fado é um estilo musical belíssimo e influente sobre as músicas brasileira, moçambinaca, caboverdiana etc. Saura é um cineasta acima de qualquer suspeita. Financiamento governamental não é defeito. Mas, no caso desse filme, a maestria do diretor parece reduzida à cenografia e à movimentação da câmera, pois as coreografias, a organização dos números musicais, as informações históricas e culturais e mesmo a própria música estão apresentadas de maneira por demais irregular, alternando momentos belíssimos com outros no mínimo confusos, e às vezes constrangedores.

Basicamente, o filme é uma seqüência de números musicais em que artistas contemporâneos de vários países de língua portuguesa (re)interpretam clássicos e homemageiam grandes nomes do fado mais tradicional. Não há praticamente nenhuma explicação sobre esses números, fazendo com que (pelo menos os leigos como eu) se entreguem ao capricho do diretor, tentando compreender os motivos pelos quais certas músicas, certos artistas, certos cenários e certa seqüência foram escolhidos daquela forma.

Não deixa de ser uma experiência interessante, sobretudo porque o uso espetacular dos poucos elementos cênicos revelados por movimentos de câmera precisos fazem com que nosso olhar seja surpreendido o tempo todo. Também a coerência cenográfica em torno de reflexos, duplicações, deformações especulares e projeções de imagens "em abismo" dá ao filme uma continuidade estética louvável e muito bem explorada, sobretudo na bela relação visual que o filme faz entre um legítimo fado brasieleiro (o "Fado Tropical", de Chico Buarque e Ruy Guerra) com imagens emocionantes da Revolução dos Cravos.

Mas, não raro, as coreografias levemente cafonas e algumas interpretações sem muita graça acabam tornando muitas dessas descobertas simplesmente enfadonhas, pois não parece haver (ou a maior parte do público não tem repertório suficiente para identificar) qualquer justificativa contextual ou estética para o que se vê.

Talvez, assistindo-se ao longa em DVD, seja mais fácil "pular", por exemplo, o número estrelado por Tony Garrido, ou ver duas vezes o "clímax" do filme, quando a equipe sai do estúdio e adentra uma legítima casa de fados. Por outro lado, para quem não conhece o trabalho da maioria dos intérpretes e instrumentistas que participam do longa-metragem, surgem muito mais dúvidas incômodas do que respostas satisfatórias.

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