DISTRITO 9:


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Original: District 9
País: EUA
Direção: Neil Blomkamp
Elenco: Sharlto Copley, David James, Mandla Gaduka
Duração: 112 min.
Estréia: 16/10/2009
Ano: 2009


(Quase) Sem comparações.


Autor: Laura Cánepa

Um dos grandes acontecimentos cinematográficos do ano, Distrito 9 foi esperado com ansiedade pelos fãs de ficção-científica por apresentar uma série de novidades em torno da velha história da invasão alienígena.

No caso, uma nave de planeta desconhecido para sobre Johanesburgo, capital da África do Sul, e, em vez de dar início a uma amizade ou a uma invasão, revela uma imensa população de aliens nojentos e desnutridos que acabam gerando um enorme problema social. No rastro dos ETs, chegam a favelização, a superpopulação e o consumo de drogas, além do contrabando de biotecnologia e de segredos militares, o que dá margem à atuação de traficantes e de empresas multinacionais em torno de um drama social aparentemente sem solução.

Depreendida desse enredo no mínimo inventivo, a alegoria política é evidente e foi imediatamente apontada como grande novidade. Mas, em princípio, a estratégia em si está longe de ser inédita. Afinal, a ficção-científica é frequentemente marcada pelo impulso alegórico, pois faz uso das possibilidades do avanço tecnológico para especular sobre o futuro da humanidade, do planeta e até do universo.

Também a visão de um futuro sujo, outra "novidade" apontada em relação ao filme, deriva de um chavão de ficção-científica "limpinha" que obras famosíssimas como "Blade Runner" e "Minority Report" (ambas baseadas em Phillip K. Dick), já mostraram que não pode ser generalizado nem mesmo entre os filmes mais importantes do gênero. Aliás, a distopia futurista é, de fato, uma das grandes vertentes da ficção-científica, e não raro vem acompanhada de escatologia e de cenas desagradáveis.

Do mesmo modo, o estilo de falso documentário (outra suposta "novidade"), tem sido experimentado de várias formas recentemente, podendo-se citar pelo menos dois filmes de monstros, como o espanhol "Rec" e o estadunidense "Cloverfield", que ousaram até mais na estratégia.

Mesmo a relação entre os aliens e os excluídos sociais não é totalmente inédita: em 1984, o cineasta estadunidesnse John Sayles já fizera uma parábola da exclusão ao contar, em "The brother from another planet", a história de um alienígena que tem a aparência de um ser humano negro e se muda para o bairro do Harlem, em Nova Iorque.

Mas, se todas essas características apontadas como inovadoras sobre Distrito 9 não são necessariamente novas, também é inegável que o filme nos oferece alguma coisa que nunca vimos antes, uma experiência revigorante tanto no gênero quanto no cinema contemporâneo. E o que seria? Como vários observadores têm apontado, certamente a perspectiva terceiro-mundista sobre a invasão alienígena é a surpresa mais específica.

Não que a ficção-científica de terceiro mundo não exista: em países como México e Argentina, por exemplo, o gênero é até relativamente popular. Mas a proposta capaz de articular a invasão alienígena aos problemas sociais graves e aos piores hábitos da exclusão social, não isolando-a como um problema que elimina os anteriores, revela uma capacidade especulativa surpreendentemente nova. Desse modo, a relação visual e cenográfica da colônia alienígena com as favelas e as comunidades marginais que proliferam em cidades como Johanesburgo, São Paulo e México se torna realmente impactante e reveladora de uma das maiores dificuldades das sociedades humanas.

Além disso, o filme também expõe uma selvageria política e empresarial que muda a abordagem das questões centrais do gênero, pois os personagens parecem (pelo menos aos olhos de uma brasileira) mais realistas do que os vilões e heróis mais comuns na ficção-científica oriunda de países industrializados, que inevitavelmente apresentam uma confiança maior no progresso a partir da ciência.

É, então, numa conjunção da distopia futurista típica dos países do terceiro mundo com os clichês de filmes sobre problemas sociais (como "O Jardineiro Fiel" e "Diamantes de sangue", para citar dois bem recentes e conhecidos), que Distrito 9 consegue encontrar um equilíbrio por vezes imperfeito, por vezes genial. Afinal, ao tratar das mazelas reais como alegoria sem eliminar o encantamento e a fantasia que marcam a ficção-científica, o filme consegue abrir um espaço novo para especulações políticas e ficcionais.

Uma observação importante deve ser feita, porém: se estamos no terreno da alegoria política, é impossível não perceber a hostilidade que o filme dirige aos imigrantes nigerianos e às religiões africanas. Não por acaso, o filme foi proibido na Nigéria. Certamente, há dezenas de questões que passam despercebidas por quem não conhece o contexto local, mas certamente a cultura do apartheid e suas justificativas preconceituosas ainda estão incomodamente presentes em Distrito 9 .

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