O CAÇADOR:


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Original: Chugyeogia
País: Coreia do Sul
Direção: Hong-Jin Na
Elenco: Yun-seok Kim, Jung-woo Ha, Yeong-hie Seo
Duração: 125 min.
Estréia: 16/10/2009
Ano: 2008


O Caçador: excesso de dramaticidade dilui força de thriller competente


Autor: Fernando Oriente

É impressionante como certos fatores usados na construção de um filme podem prejudicar e, em muitos casos, destruir uma obra. O cinema é uma manifestação cultural tão fascinante quanto complexa. O resultado final de um longa é dependente de uma correlação muito mais rígida de elementos do que pode-se pensar aparentemente. Quando alguma peça da engrenagem não funciona corretamente, toda a estrutura fílmica fica abalada. Essa introdução serve para nos situarmos diante de “O Caçador”, thriller que poderia ser muito bom, não fosse o destempero da carga dramática e a apelação emocional usadas em algumas de suas sequências mais fundamentais, principalmente na parte final. Os notáveis equívocos prejudicam muito o trabalho do diretor sul-coreano Na Hong-Jin, mas ainda assim, seu longa contém uma boa dose de acertos que fazem com que o filme situe-se bem acima do que estamos acostumados a receber anualmente dentro do gênero.

“O Caçador” tem sua força centrada na poderosa montagem em que Na se ancora para desenvolver um belo trabalho de decupagem, que garante uma sucessão vertiginosa de cenas em que a tensão e o suspense dão o tom. O espectador é conduzido com habilidade pelo diretor em meio ao crescente desespero com que o protagonista se envolve em uma angustiante busca pela vítima de um psicopata que ainda pode estar viva. O que torna as situações dramáticas mais intensas é a maneira como Na constrói a evolução narrativa e os climas dessa evolução, alternado as cenas da busca pela garota com a dificuldade encontrada pela polícia em incriminar o assassino; já mostrado em toda sua sordidez desde o início do filme. Preso e confessando com frieza psicótica seus crimes, ele nunca entrega o destino de sua última vítima, nem o local onde teria enterrado as demais garotas que matou. Esse jogo psicológico tem como pano de fundo as próprias limitações emocionais e as texturas de personalidade do personagem principal, um ex-policial que se tornou cafetão e encontra-se em crescente conflito interno entre valores morais e a necessidade de “se virar”. O desespero do protagonista cresce ao mesmo tempo em que a tensão das sequências ganha força. O roteiro oferece ainda novos elementos que acabam por complicar e impedir as ações dos personagens. Surge a filha da vítima, os problemas burocráticos e a contagem regressiva para que as soluções sejam encontradas. Nada disso é novidade e um dos maiores méritos do filme é utilizar-se desses lugares comuns com competência, evitando a banalização dos clichês.

Na Hong-Jin acerta em cheio no uso da montagem paralela, que potencializa o impacto de algumas sequências e amarra com mais firmeza a evolução do suspense. Bons enquadramentos e movimentos de câmera ganham força pelo uso do potencial cênico dos ambientes que, com um bom trabalho de luz, servem de catalisadores da violência e do desespero das situações. As sequências noturnas, os lugares fechados, a penumbra e a chuva são fatores positivos em “O Caçador”, graças à forma segura com que Na assume sua predileção por elementos banais, mais de alto potencial de funcionalidade dramática dentro do thriller como gênero.

Mas como o cinema deve sempre ser pensado no todo que compõe cada filme, as apelações emocionais e os excessos dramáticos da encenação que tomam conta do longa em sua parte final acabam por diluir muito a força de “O Caçador”. Cenas em que a velocidade retardada dos planos hiperbolizam as reações dos tipos, atuações comprometidas pelo gesto excessivo dos atores e soluções mal concebidas para alguns personagens chegam a irritar, fazendo com que o espectador sinta-se manipulado vulgarmente em suas emoções. Os excessos também tomam conta da mise-en-scéne, e os recursos de composição de cena passam a privilegiar as reações de ódio e o sentimento de vingança em detrimento da tensão mais sofisticada que vinha demarcando a evolução do longa.

Se pensarmos no novo cinema sul-coreano, esse que eventualmente chega ao circuito brasileiro, fica nítido como o thriller e o suspense, bem como as histórias envolvendo assassinos e vinganças, são os temas favoritos dessa cinematografia no momento. A partir dessa tendência, parece que os excessos dramáticos são uma constante nesses filmes. Alguns cineastas, como Park Chan Wook (em “OldBoy”) e Bong Jonn-Ho (em “Memórias de um Assassino” e no ótimo “O Hospedeiro”) sabem conter mais seus exageros e realizam obras mais sofisticadas. E, distante desses diretores todos e de suas temáticas, existe um certo Hong Sang-Soo: complexo, brilhante e autor de filmes fantásticos. Mas esse tipo de cinema, também feito na Coréia, parece não interessar os distribuidores daqui. Fazer o que?

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