BASTARDOS INGLÓRIOS:


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Original: Inglourious Basterds
País: EUA
Direção: Quentin Tarantino
Elenco: Brad Pitt, Mélanie Laurent, Christoph Waltz, Eli Roth, Michael Fassbender, Diane Kruger, Daniel Brühl, Til Schweiger.
Duração: 153 min.
Estréia: 09/10/2009
Ano: 2009


Mais um tiro certo de Tarantino


Autor: Laura Cánepa.

Acaba sendo um pouco difícil escrever sobre Bastardos Inglórios ("Inglorious Basterds", 2009), o novo longa de Quentin Tarantino, pois, de maneira geral, não há grandes surpresas em relação ao que já se poderia esperar.

Em primeiro lugar, porque o filme é ótimo, confirmando a regularidade que o cineasta apresenta desde sua estréia nas telas. Segundo, porque traz um elenco excelente e multinacional, o que já era uma realidade elogiável pelo menos desde "Kill Bill - Vol 1". Terceiro, porque confirma as influências tão comentadas do cinema B oriental e europeu (sobretudo o italiano) que dão aos filmes dele boa parte da "originalidade" em comparação com o produto mais típico de Hollywood. Quarto, pela excelente trilha-sonora pesquisada, que é sempre uma atração à parte. Quinto, pela multiplicidade de referências a outros filmes, o que localiza suas obras no riquíssimo universo do próprio cinema, fazendo a alegria dos cinéfilos.

Então, é no contexto da própria obra de Tarantino que se pode apontar algumas novidades interessantes contidas em Bastardos Inglórios.

Uma delas é o tema: a Segunda Guerra Mundial, verdadeira "prova de fogo" para cineastas em trajetos de legitimação artística, como já ocorreu com Steven Spielberg, Clint Eastwood e Spike Lee.

Nesse sentido, Tarantino, mantendo-se fiel ao seu estilo, evita trabalhar o gênero "filme de guerra" de maneira óbvia, inciando seu longa como um western spaghetti (com referências ainda mais evidentes a Sergio Leone do que já se vira em "Kill Bill - Vol. 2"), passando pela comédia maluca, pelo filme de ação, pelo drama de espionagem, pelo filme noir, pela comédia romântica e pelos filmes de luta, e ignorando as óbvias cenas de batalhas e bombardeios. Diferentemente do que se dava nas obras mais famosas do diretor ("Pulp Fiction" e "Kill Bill"), porém, essas passagens entre-gêneros se dão de maneira mais suave, talvez pelo fato da narrativa ser, desta vez, um pouco menos fragmentada.

Como notou o crítico Felipe Guerra no blog "Filmes para doidos", também chamam a atenção, em Bastardos Inglórios, os longos diálogos aparentemente sem sentido, típicos de Tarantino, apresentados de forma melhor integrada à narrativa do que em "Cães de Aluguel" ou "Jackie Brown", o que acaba sendo um alento considerando-se a duração de quase três horas de projeção.

Já os maiores destaques, talvez mais do que nos longas anteriores de Tarantino, ficam para os atores: o extraordinário austríaco Christoph Waltz, que criou um dos melhores vilões do cinema recente e, pelo papel, recebeu a Palma de Ouro de Melhor Ator no Festival de Cannes; o francês Denis Menochet, em participação pequena mas muito expressiva; e as competentes Mélanie Laurent e Diane Kruger, que seguram bem a pequena ala feminina.

A grande novidade, porém, parece ser o novo referencial cinéfilo e crítico trazido por Tarantino em Bastardos Inglórios: o do cinema alemão, tanto em seu momento pré-Segunda Guerra quanto o próprio cinema nazista. Há uma profusão de referências interessantes a essa cinematografia no desenrolar do longa, o que inclui até mesmo um novo filme de guerra dirigido pelo ator/diretor Eli Roth (que interpreta um dos papéis mais divertidos do filme de Tarantino) e estrelado por Daniel Brühl, conhecido pelas participações em sucessos do cinema alemão recente como "Adeus, Lenin" e "Edukators".

A presença de trechos desse pequeno filme de guerra areja e dá outro fòlego ao estilo paródico e enciclopédico de Tarantino, abrindo mais um leque de possibilidades metalingüísticas tão caras ao seu cinema. Além disso, a relação de Bastardos Inglórios com filmes de um momento histórico tão importante permite ao diretor, talvez pela primeira vez, uma liberdade com relação à História que faz de sua "metaficção históriográfica" uma verdadeira lavada na alma, pelo menos para quem já se cansou de obras que revisitam a Segunda Guerra sempre sob o mesmo olhar.

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