OLIVER TWIST:


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Original: Oliver Twist
País: Inglaterra / República Tcheca / França / Itália
Direção: Roman Polanski
Elenco: Ben Kingsley, Barney Clark, Jamie Foreman, Harry Eden, Leanne Rowe, Lewis Chase, Edward Hardwicke, Jeremy Swift, Mark Strong, Frances Cuka, Chris Overton e Michael Heath.
Duração: 130
Estréia: 18/11/2005
Ano: 2005


Decadência ou avanço de Roman Polanski?


Autor: Fernando Watanabe

“Oliver Twist” tem sido vítima de críticas muito homogêneas entre si, que já estabeleceram um senso comum acerca do filme. Apontam-se problemas como: a velha dificuldade em adaptar para o cinema todo um extenso romance literário, a falta de “inovação” na abordagem de Roman Polanski, que estaria, a partir do “O Pianista”, se tornando cada vez mais acadêmico. Pois bem, esse clichê pejorativo do academicismo merece um olhar mais cuidadoso, pois nas palavras do próprio cineasta, “a essa altura da minha carreira consegui atingir o academicismo, o que considero um mérito”.

A começar pelo esquematismo do roteiro, escrito por Ronald Harwood, e adaptado do livro de Charles Dickens, justamente um escritor conhecido por ter uma escrita imagética. A trama é submissa às linhas de ação, tentando concatenar os acontecimentos, o que resulta em personagens tipificados e subservientes ao roteiro. E Polanski não faz feio no tratamento imagético: ele sabe colocar a câmera no exato lugar onde ela deveria estar, sempre com o intuito de ser claro para o espectador, resultando num desvanecimento do narrador (no caso, o cineasta) e possibilitando um fluxo transparente da história. Um exemplo dessa lucidez das imagens é o mecanismo clássico utilizado nas cenas interiores: primeiro, um plano aberto, que caracteriza o espaço, e depois planos e contra planos nos personagens. Arroz com feijão mesmo. Há alguns poucos momentos ruidosos nessa coerência, justamente aqueles nos quais a “marca” Polanski é mais evidente. Quando Faggins pega a faca e ameaça ferir uma das garotas do lar de ladrões, sente-se a tensão e a maldade presente em muitas cenas presentes em toda a obra de Polanski (vide “Macbeth” e “O Bebê de Rosemary”). Mas esses toques pessoais destoam do todo.

Por outro lado, o diretor é bem sucedido em outros elementos seus adicionados à adaptação. O garoto Oliver é a inocência que resiste perante uma faceta do mundo injusto, corrupto, cruel. E esse ambiente, é uma Londres da pobreza generalizada, dos malandros, da exploração. Ora, Polanski viveu isso, em outro tempo, em outro contexto, em outros lugares, mas sua trajetória pessoal foi marcada por esse instinto de sobreviver diante da maldade. E é justamente por conhecer tão bem esse aspecto da vida que tem–se um Oliver perplexo com o que encontra, mas que ao mesmo tempo nunca se entrega. A cena no jantar do orfanato é emblemática: enquanto todas as crianças aparecem homogeneizadas pela disciplina imposta pela instituição, Oliver diz um subversivo “eu quero mais”, querendo repetir o prato. Então, os adultos responsáveis o perseguem pelo refeitório, delicioso de se assistir.

Desconfia-se um pouco do estereótipo dado ao personagem do típico garoto esperto, maduro e virtuoso (do qual o cinema está saturado, vide a recente Fábrica de Chocolate), pois omite-se qualquer outra característica que venha a tornar o menino efetivamente uma pessoa crível. Ele não está aberto à corrupção que o mundo lhe impõe, não hesita, não há dilemas morais em sua cabeça. Conseqüentemente há pouca abertura para um pouco de humanidade.

Já o inverso ocorre com Faggins, que no desenrolar da trama é apresentado como um vilão, um tanto meio decadente e digno de pena. E na cena da prisão, próxima ao fim, que o lado humano desse personagem aflora, numa espécie de redenção. Conclusão: Faggins não é maléfico por escolha, mas por uma determinação imposta pela sociedade inglesa daquele tempo. Tal determinismo social é um recurso um pouco pobre, mas em coerência com a obra de Dickens. Já Bill Sykes é a personificação do mal. Oportunista, explora a pobreza para seu próprio benefício. Tal qual seria a burguesia industrial daquele momento? Talvez, se olharmos a obra dickensiana por um viés crítico.

Mas aqui não é a questão mais importante, uma vez que se o objetivo fosse criticar, analisar, ou provocar a reflexão, certamente o cineasta teria escolhido outra forma de abordagem, ou mesmo nem teria filmado Oliver Twist. Aqui, o academicismo impera, para o bem da obra original escrita, já que Polanski demonstra que aprendeu a manejar os clichês sem subvertê-los, mostrando que após muitos anos de carreira, parece ter se reconciliado com o cinema convencional.
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