DEIXA ELA ENTRAR:


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Original: Lât Den Rätte Komma In
País: Suécia
Direção: Tomas Alfredson
Elenco: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar, Henrik Dahl, Karin Bergquist, Peter Carlberg
Duração: 114 min.
Estréia: 02/10/2009
Ano: 2008


Tomas Alfredson subverte a regra normal da vida adulta.


Autor: Fernando Oriente

Deixa Ela Entrar é um filme impossível de se denominar dentro de um gênero específico. Nesse excelente trabalho, o diretor sueco Tomas Alfredson usa de maneira original os elementos sempre fascinantes que envolvem as histórias de vampiro e faz um filme em que o horror é uma solução para a subversão de uma ordem social desgastada e que, necessariamente, acaba condenando a todos aqueles que vivem dentro de suas regras salutares de convivência pacífica. Essa condenação implica em existências melancólicas em que o conformismo resulta sempre em desilusão, egoísmo e falta de perspectivas. O mundo certinho dos adultos é um verdadeiro pesadelo de emoções congeladas e resignação consentida. O universo social que aguarda o jovem protagonista do filme (Oskar) ao entrar na adolescência é frígido e não reserva nem um fio de esperança para um futuro minimamente feliz. A estranheza da entrada na puberdade não é fruto de expectativas por uma vida plena de autodeterminações de personalidade, mas uma promessa ameaçadora de um porvir resignado em torno da mediocridade coletiva que nem mesmo a sexualidade e as demais relações interpessoais podem aliviar do fardo anunciado.

Tudo muda quando Oskar conhece Eli, uma garota de 12 anos que, além de ter a mesma idade que ele, carrega a mesma tristeza colada à sua figura aparentemente frágil. Os tormentos de Eli são de outra ordem do que aqueles que afligem o menino, mas a identificação entre suas almas e a inevitável atração que surge entre eles irá uni-los de forma intensa (e o eterno tema do florescer da sexualidade ganhará tratamento sensível e diferenciado por parte de Alfredson). Eli impressiona Oskar não apenas pelos fatores que os assemelham, mas porque a jovem emana uma força e uma postura em relação ao opressor ambiente que os cercam que acaba por servir de guia para o garoto, não só em seus primeiros passos na puberdade, mas também nas alternativas que passa a cogitar em como lidar com tudo aquilo que o incomoda. É aqui que “Deixa ela Entrar” começa a impor-se em sua originalidade. Eli é uma vampira e a abordagem do lado bestial que um vampiro representa na sociedade ganha outras repercussões graças à maneira preciosa como Alfredson desenvolve o tema e cria as situações dramáticas.

Tudo parte do conflito criado entre o já descrito mundo adulto e as possibilidades de rejeição desse meio. Os jovens são impedidos de entrar no círculo condenatório da vida responsável desses adultos exatamente pela negação desse estilo de vida que é representada no caráter “monstruoso” do vampirismo de Eli. O monstro aqui é aquele que rejeita a melancolia e a prostração dos mecanismos de existência considerados normais. Ao contrário da maioria dos filmes de terror, em que a monstruosidade e a degeneração são sintomas que perturbam a norma correta e estável da boa vida burguesa, Deixa Ela Entrar imprime a essa “aberração” um discurso de negação do verdadeiro estado abjeto em que a sociedade normal está condenada a viver. Os personagens mais velhos do filme são tipos reprimidos, amargurados e frustrados. Arrastam-se em meio ao nada, são espectros que perambulam sem ter algo minimamente interessante para fazer ou dizer. A frieza com que Oskar é tratado pela mãe e pelo pai, ambos ausentes e desumanizados em suas concepções cênicas, contrapõe-se com o crescente afeto que surge em seu relacionamento com Eli. A ligação entre os dois é muito bem construída por Alfredson, que vai aprofundando a cumplicidade entre eles ao mesmo tempo em que se envolvem afetivamente com cada vez mais intensidade.

Para se combater esse estado de coisas é necessário que os dois garotos consumem suas pulsões violentas. Seja em questões de sobrevivência para Eli ou em termos de autodeterminação para Oskar. Alfredson não nega, muito pelo contrário, a necessidade do uso da agressividade como ferramenta de sobrevivência e como mecanismo de defesa e consolidação de personalidade. A violência no filme é traduzida em cenas elegantemente filmadas, em que a brutalidade ou é sugerida, ou é mostrada com distanciamento por meio de ângulos abertos, sempre ressaltando a densa atmosfera que Alfredson impregna em seu longa. Deixa Ela Entrar é um filme de climas muito bem definidos em que se sobressai a constante sensação de suspense e a desconfortável tensão que tipos diferentes do padrão representam em meio a um ambiente que se pretende tão normativo e previsível. A mise-en-scéne é rigorosamente orquestrada pelo diretor, que abusa de enquadramentos criativos e usa com maestria as potencialidades dos cenários onde ocorrem as ações.

Além de compor um drama cheio de nuances e forte densidade, Alfredson capricha no caráter formal de seu filme. A luz branca e chapada do sol de inverno e as luzes artificiais das sequências noturnas ou internas compõem um interessante contraste com a brancura do cenário nevado e as cores sóbrias e desbotadas do cenário. Esse recurso potencializa o paradoxal registro das situações, que é ao mesmo tempo terno e distanciado, sem nunca cair em sentimentalismos baratos. Deixa ela Entrar é um desses filmes que chegam sem alarde, impressionam por sua originalidade e tornam-se imperdíveis. Filmaço!

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