SALVE GERAL:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Sérgio Rezende
Elenco: Andréa Beltrão, Michel Gomes, Lee Thalor, Eliane Giardini, Marco Ricca.
Duração: 126 min.
Estréia: 02/10/2009
Ano: 2009


É cinema em dúvida.


Autor: Cid Nader

"Inspirado em fatos reais". É o tipo do aviso no cinema que deveria ser dispensado em favor da boa arte e da liberdade poética. Apelo usualmente exercido por quem imagina que o público necessite a referência da proximidade e não compreenda a arte por si só - como manifestação manipulável em favor do bom resultado pretendido. Nem sei até que ponto Salve Geral venha a se abastecer do aviso em sua caminhada rumo ao "Oscar", e o quanto é vontade de seu diretor, Sérgio Rezende, que tal apelo esteja ligado à divulgação e à vida do filme. Talvez seja mais uma "sacada" dos distribuidores unir a "urgência" do fato documental à empreitada, tanto quanto é evidente o apreço exacerbado pela possibilidade da corrida rumo ao "Oscar" ser mais fator alardeado e festejado por eles do que por ele.

Mas é evidente que o filme não nega essa sua origem junto à realidade do ocorrido naquele ano de 2006, tanto por conta do embrião da história, quanto pelo fato de haver no trabalho um sub-inscrito texto de arrogação política por parte de um setor das facções criminosas que manipularam e orquestraram o evento. Também não é difícil constatar a tendência do trabalho em querer resgatar pictoricamente (cenário e entorno), ao máximo de proximidade com a realidade, os momentos de pavor e pausa impensada (que sucedeu ao pavor) que marcaram o momento, retratados aqui numa tentativa impressionista o mais próxima possível, fisicamente, daquele instante. Mesmo que não haja um atrelamento tão forte ao fato real nos discursos que ocorrerão enquanto o filme for apresentado ao mundo, e às pessoas, é evidente que o aspecto de reconstituição tenta fazer disso um mote considerável e "palpável".

Há uma discrepância entre discurso - mesmo que implícito às imagens e à reconstrução/semelhança material - e um estilo muito próprio do diretor. Mais do que Rezende, uma boa parcela de nossos realizadores (nossos, os brasileiros) tende a individualizar as situações de potencial popular. Isto é: ao contrário dos argentinos, por exemplo (e já citei isso anteriormente em "Zuzu Angel", do mesmo diretor), por aqui a tendência é de quase sempre se criar a história de um ente a ser martirizado, guindado do momento histórico, mesmo que tal momento envolva multidões e ideais aglutinadores (filmes de revoluções, da ditadura, de aglutinação pública em torno de um foco) - talvez seja o caso, num outro momento mais apropriado, de se procurar instigar uma discussão das razões de tal comportamento tão arraigado em nossos realizadores artísticos, antepondo-se a uma realidade que "nos vê" como vencedores e como páreo para qualquer parada quando reunidos, "em turma" (bastando reparar no nosso reconhecimento por conta de eportes coletivos, ou nas manifestaçãoes artísticas de porte "populoso" - desfiles de escolas de samba, por exemplo). No caso, voltando ao filme e esquecendo temporariamente a digressão, o diretor resgatou (criou, livremente e poeticamente) Andréa Beltrão daquele momento conturbado e fortemente público (havia uma comoção pública inédita no país), para criar uma história que abraça dois seres (mãe e filho - Lee Thalor - acima do todo) envolvidos no caso, quase por acaso. É certo que há um enfoque que avança e acaba por privilegiar uma duplicidade de força feminina ante catarse tão masculina quanto a gerada por aquele momento de violência: há a junção de Denise Weinberg (uma advogada e quase cabeça do crime) a Andréa. Fato que não deixa de ratificar a individualização de um fato de dentro de proporções mais amplas.

Quando se opta por tal particularização, é necessário - obviamente - que o cuidado na construção de cada personagem seja redobrado, já que a opção pelo indivíduo foi tomada. E aí começam as peripécias negativas que sabotam a possibilidade de um trabalho. Rezende não consegue construir personagens críveis. Pior: cria protagonistas que não "confiam em si por si só", que precisam ir se apresentando conforme vão entrando na fita, um a um, com discurso próprio e “cara” apropriada para cada configuração. Não ocorre o reconhecimento natural que se imagina acontecer em filmes que não têm pé fincado na "não naturalidade" como opção. O cinema do diretor é baseado no naturalismo, mas as figuras que povoam Salve Geral são caricatas, estampas de cartilha, que têm que mostrar “didaticamente”, quase recitando, através de caretas e atitudes impostoras, seus predicados, suas crença, seu posicionamento.

Contribuindo com essa fraqueza interpretativa, os tipos e muitas das situações inventadas são de dramaticidade muitas vezes pífia, novelesca (no sentido pejorativo que o termo empresta): ver a advogada despirocando à la Jack Nicholson ensandecido nos momentos finais, acompanhar a transformação impensável da mãe Andréia – seu rasgo de paixão carnal repentino, aditivado por falas inacreditáveis (a recusa à droga, num momento, por exemplo, é sintomática da qualidade mal calculada) -, ver o posicionamento político radical de um dos líderes (como se saído de um filme de propaganda soviética feito por encomenda, não por um dos grandes diretores do movimento), reparar na tensão fraca nos momentos de tratativas entre o “Comando da Capital”e os políticos de plantão, por exemplo, são sinais inequívocos de rateada em filme que opta por indivíduos.

De todo o modo, apesar das falhas graves, Rezende não fez um filme totalmente dispensável. Não tão fraco e equivocado no seu todo. Alguns momentos são de cinema – aliás, é filmado com qualidade e enfoques de cinema -, e a opção em não se posicionar, ficar neutro ante as variantes possíveis e o glamour fácil do discurso marginal revoltado contra a instituição apodrecida em diversos setores, é evidente, ostensiva e de um bom “resultado moral”: ele consegue observar e trabalhar à distância quando o assunto é o embate amplo de posições. O diretor precisou dizer numa coletiva, para colegas menos atentos e que insistiram em “perceber” uma inexistente glamurização da marginalidade, no filme. que tentou ser apartidário no trabalho. Outra virtude é o fato de ter trabalhado com atores de teatro de São Paulo e ter conseguido fugir do fantasma da empostação teatral. Por outro lado, falou em benefício próprio de uma “suposta” trilha variada e trabalhada para instantes específicos, quando o que ocorre, na realidade, é uma repetição sem nexo de um mesmo tema clássico, com algumas variantes, nos momentos mais de pico. A suposta trilha variada de Miguel Briamonte fica muito mais localizada em baixos sons e instantes fugazes.

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