JOGANDO COM PRAZER:


Fonte: [+] [-]
Original: Spread
País: EUA
Direção: David Mackenzie
Elenco: Ashton Kutcher, Anne Heche, Margarita Levieva, Sebastian Stan.
Duração: 97 min.
Estréia: 25/09/2009
Ano: 2009


Melhor do que aparenta.


Autor: Cid Nader

Quando o diretor de origem escocesa, David Mackenzie, inicia seu novo filme, Jogando Com Prazer”, um longo e extremamente bem arquitetado plano-sequencia parece servir de alerta - de cartão de visita caprichado e cheio de boas referências – para dizer que o que se viu nos trailer do filme eram apanhados de muito mal gosto, que haviam sido escolhidos para atrair uma platéia mais propensa a comédias levemente apimentadas e voltadas ao entretenimento de prazer superficial.

Resumir o bom resultado de um trabalho sob a “capa” de boa manipulação estética pode ser um sinal de certo comodismo e “alguma pouca” exigência sobre aspectos mais complexos e amplos que deveriam ser os responsáveis para resultados mais notáveis de qualquer manifestação artística que execute técnica na sua confecção – notadamente o cinema. Por outro lado, saber que um filme – via realizadores – foi cuidadoso neste aspecto, ousado (pouco que seja), procurando deixar evidente que “tal” setor na confecção cinematográfica é o que há de mais desejável, é um passo admirável e favorável e sinal de que foi compreendido sob aspectos muito mais pertinentes á arte do que outros que deveriam ser mais compreendidos como de mais cara importância ao teatro, à pantomima, ao circo... Cinema é antes de tudo imagem e trabalho sobre o obtido dela – com o som levando uma honrosa e importante segunda colocação.

Jogando Com Prazer é bem confeccionado imageticamente, bem editado, bem bolado via nuances de luz e cor. Além do plano inicial – que além de ser longo, exigiu bastante malabarismo da movimentação de câmera, e um óbvio e bem executado arranjo do entorno (atores, momentos, situações) -, durante todo seu trajeto foi alvo de belos takes e imaginativas angulações: vale lembrar, só para citar mais um desses bons momentos, o instante em que a câmera “pega” um personagem mergulhando, via um enfoque central, passando a “ondular” levemente com o movimento natural das águas, para recebê-lo na outra borda da piscina. Creio bastante justo ressaltar todo este cuidado com “o que se deve fazer com imagens”.

Mas, filmes ganham pontos se conseguirem adequar a boa manipulação de imagem e som com bom estofo, boa essência, boa história. Novamente voltando ao trailer, o que insinuavam os trechos escolhidos para sua confecção eram dignos de dar forma a uma história reles, fútil, vazia, bem ao estilo do que de pior tem apresentado a cinematografia ianque nos momentos em que resolve capturar a qualquer preço, com jóias vagabundas, públicos ávidos por “rasteirices”, por “não quero me comprometer, só me divertir”. David Mackenzie nem fugiu de ver seu trabalho bastante representativo de coisas dos EUA. Porém, no caso, a ligação evidente a padrões locais, veio bastante forte não por tentativas torpes e acomodadas de agrado, e nem somente pelo padrão “comédia leve”: Jogando Com Prazer” acaba correndo um risco impensado anteriormente, que é o de se situar dentro de uma das tradições locais bastante usada pelo cinema (sendo que a primeiríssima refere a finais onde a preservação família – como um sustentáculo forte da sociedade - é o grande objetivo a ser alcançado) que é trazer à tona o (a) ser humano que pecou, errou, e que merece a grande chance da redenção, da reconciliação com o “lado do bem” (outra coisa bastante cultuada e praticada numa sociedade “exata”, reta, protestante).

Não que nesse sentido de essência, de motes, de história o filme mantenha o mesmo grande padrão que ostenta no quesito ‘técnica”, mas, também, fica bem longe de ser superficial. Para falar de um gigolô e de modos de agir de pessoas com estas “falhas” no caráter, Mackenzie se abastece sim de clichês, e vê o filme derrapar por tais opções mais acomodadas. Ocorre, que enquanto se encaminha do final, um possível horizonte que ameaça ser descortinado como o ideal para tais atitudes clichês na história, sucumbe. Não que ocorra um desfecho memorável ou inusitado, mas ocorre uma solução minimamente digna por fugir da obviedade insinuada. Como que para corroborar com as atitudes mais a cima do que o imaginado, o filme, também, investe em situações de nudez e simulações de sexo um tanto acima do tom do padrão “entretenimento”, o que lhe faculta mais alguns pontos favoráveis. Na média, Jogando Com Prazer consegue ser uma surpresa agradável, com muito mais virtudes a serem destacadas do que defeitos. Ah, e o final mesmo (aquele que ocorre enquanto os créditos sobem) é dos mais impensáveis que já vi – nem sei se existe uma explicação racional para tal opção, mas que é surpreendente, é.
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