CHE 2 - A GUERRILHA:


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Original: Che: Part Two/Guerrilla
País: EUA
Direção: Steven Soderbergh
Elenco: Benicio Del Toro, Demián Bichir, Marc-André Grondin, Catalina Sandino Moreno
Duração: 133 min.
Estréia: 18/09/2009
Ano: 2008


O desfecho de trajetórias: do filme, do revolucionário, do mito...


Autor: Fernando Oriente

A primeira pergunta que vem a cabeça de muitos espectadores antes de assistir à “Che” é: o que esperar de uma versão cinematográfica da vida de um dos maiores ícones da esquerda em todos os tempos, cuja direção é assinada por um norte-americano? E, como se não bastasse, produzida com dinheiro de estúdios pertencentes à mega-corporoções capitalistas? Após quatro horas de filme, as respostas para essas dúvidas ficam claras. O longa de Steven Soderbergh é uma poderosa cinebiografia que registra, com muito talento e sem sentimentalismos vulgares, a vida e os feitos de um dos homens mais importantes da recente história mundial. E, para completar, o Ernesto Guevara que vemos na tela é retratado pelo cineasta com um misto de admiração, respeito e enaltecimento de seus atos e pensamentos.

Particularmente, não gosto de usar pronomes pessoais e verbos em primeira pessoa do singular nas críticas que assino, mas me vejo obrigado a abrir uma exceção aqui. Por razões sentimentais e ideológicas, é bem capaz que tenha gostado ainda mais de “Che” do que suas qualidades como filme permitiriam. Apesar dessa ressalva, é importante deixar claro que o filme de Soderbergh possui muitos predicados, independente da orientação político-intelectual do espectador.

Um dos principais méritos do longa é confirmar o valor e a importância capital que Ernesto Guevara de la Serna têm como pensador , político e homem de ação dentro das lutas por um mundo mais justo e igualitário. Em meio a crescentes campanhas das forças reacionárias (com ecos que chegam ao Brasil até em reportagens de capa de revistas semanais de direita) que visam diminuir a importância e até crucificar e ridicularizar Che, o longa de Soderbergh o recoloca em seu devido lugar: um mito muito maior do que qualquer movimento difamatório e muito mais importante do que um mero produto de consumo da imagem em camisetas e botons.

Devido à longa duração, à dedicação de nomes de peso da indústria cinematográfica ao projeto e, principalmente, à importância da figura retratada, “Che” não escapa do rótulo de épico; praticamente um acontecimento dentro do mundo cinematográfico. Dividido em duas partes (com características estéticas diferentes entre elas), o longa retrata, em sua primeira metade, a conquista do poder em Cuba, com a passagem de Che pela ONU em 1964 como pano de fundo. Na segunda, vemos a incursão do revolucionário na luta armada na Bolívia e seu assassinato em 1967. É uma divisão entre a o sucesso e a o fracasso, e como esses dois momentos deixaram um legado indelével para a humanidade. Muitos observadores alegaram, na época da estréia do filme no Festival de Cannes de 2008, que faltou ao longa registrar o período de Guevara como integrante do governo revolucionário em Cuba. É uma crítica relevante, já que momentos deixados de fora ajudariam a contextualizar mais as características pessoais e as especificidades de caráter de Che.

Os dois principais responsáveis pela qualidade de “Che” são Benício Del Toro (numa interpretação preciosa, em que consegue recriar um personagem tão cultuado em sua múltiplas camadas com uma atuação contida e ao mesmo tempo passional) e, principalmente, o diretor Steven Soderbergh. O cineasta contextualiza muito bem, através das imagens que cria, as ações e os sentimentos envolvidos. Usa com segurança os efeitos trêmulos da câmera na mão, fecha os ângulos em seus personagens (retirando muito sentimento das expressões de seus rostos) e compõe planos abertos em que explora bem a relação de suas figuras dramáticas com o espaço das ações. Da mis-en-scene, Soderbergh extrai tensão e dramaticidade, que consegue manter ao longo das mais de quatro horas de projeção.

O Che Guevara que vemos na tela é um homem de fortes princípios e rigoroso senso ético. Um revolucionário autêntico e sincero, que age o tempo todo de acordo com seus códigos e valores nobres, pensando sempre na tomada do poder das mãos das elites reacionárias para entregá-lo ao povo. É um homem que se revolta com o sofrimento e as falta de condições mínimas com que os pobres do mundo são obrigados a conviver. Defende com convicção que a única forma para se processar essa troca de poder é por meio da luta armada e não recusa a necessidade de tomar atitudes rigorosas e implacáveis para alcançar a vitória revolucionária. A coerência entre suas ações e pensamentos é constante, e o a acompanha desde os combates até seus discursos nas Nações Unidas.

Na segunda metade desse trabalho, renomeada Che 2 – A Guerrilha, os aspectos particulares do revolucionário evidenciados no “primeiro trecho” são deixados de lado, e com isso o longa perde um pouco de sua força. O foco agora é mais centrado nas ações em si, e o clima de proximidade do fim conduz o filme aos elementos de um thriller. Em sua passagem pela Bolívia, as relações entre os revolucionários são mais tensas, e Guevara não consegue produzir uma unidade sólida entre seus combatentes. As ações do governo local são mais firmes, e com apoio fundamental dos EUA, por meio de equipamentos de guerra e agentes da CIA, frustram as ambições da guerrilha.

A morte de Che é um dos pontos altos do longa. Através de uma câmera subjetiva (que vê a execução com os olhos de Guevara), encaramos o soldado que o mata. Os disparos que saem do fuzil são direcionados para a platéia. Morre o mito que dedicou a vida para a humanidade, e essa humanidade, transformada momentaneamente em espectador de cinema, é alvejada pelas balas da repressão. Para resumir Ernesto Che Guevara e a maneira como Soderbergh o transporta para tela, vale uma frase de Bertolt Brecht: “Há homens que lutam um dia, e são bons; há homens que lutam por um ano, e são melhores; há homens que lutam por vários anos, e são ótimos; e há outros que lutam durante toda a vida, esses são imprescindíveis.”

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