A VERDADE NUA E CRUA:


Fonte: [+] [-]
Original: The Ugly Truth
País: EUA
Direção: Robert Luketic
Elenco: Gerard Butler, Katherine Heigl, Cheryl Hines, Bree Turner, Eric Winter, Bonnie Somerville.
Duração: 97 min.
Estréia: 18/09/2009
Ano: 2009


Maculação de uma tradição.


Autor: Cid Nader

Ouvi ontem mesmo um crítico destes mais famosos dizendo que A Verdade Nua e Crua era uma comédia romântica divertida, leve e bem realizada. Imaginava escrever a respeito do filme (dirigido por Robert Luketic)- antes de ouvir avaliação tão pouco afeita a qualquer regra razoavelmente aceitável de uma boa análise crítica, e tão descaradamente ligada à percepção “baixa” de cinema, aquele que é exercida por pessoas que param nas filas dos grandes complexos cinematográficos dispostas a ver qualquer coisa, desde que ainda existam “lugares sobrando” -, desancando, levando o assunto a sério, questionando razões, cobrando fidelidade à boa confecção cinematográfica e tal... Mas creio que melhor não.

Levar o assunto “cinema” de modo sério demais – em qualquer instância, por qualquer filme que ganhe a chance de estrear em telona, querendo tentar entender a arte do entretenimento como dissociada da alienação e possível, mesmo quando mira o grande público, por vias bem estruturadas, bem pensadas, artística e tecnicamente competente –, por muitas vezes tem feito me sentir um ET gastando verve, perdendo neurônios, batalhando a ponto de não ser compreendido: gastando vela com defuntos de baixa expectativa, e de pouco lembrança para a eternidade.

O chato, é que este trabalho acaba contaminando uma porção de outros que caminham pela mesma origem dramática – comédias leves, que sabe-se, sempre e sempre, levarão a um final feliz que conjugará o casal mais “improvável” no início da trama. Há a tradição norte-americana desta linha de encaminhamento que busca por meios mil contar situações que desembocarão num mesmo desfecho de aparência e expectativa ideal. Há a tradição norte-americana de fazer deste caminhar, deste confeccionar, algo que capture “públicos”: desde o início do cinema, pra falar a verdade. Mas há coisas boas e uma espécie de escola local neste tipo de matéria. São décadas de reconhecimento, de assinatura, de especialidade própria, que resultaram diretores e obras dos mais marcantes na história da sétima arte, como uma arma incontestável de contra-ataque a antiamericanismo exercido por alguns poucos setores radicais da crítica, que acabam não tendo como fugir à realidade da qualidade comprovada destas jóias.

O chato, é que este trabalho se alia a uma corrente cada vez mais comum, de coisas comuns e ofensivas ao bom senso, ao bom cinema, à boa arte, que tem invadido e dominado as salas de projeção, obstruindo a possibilidade de filmes bons e pequenos, capturando um público quase “acéfalo”, obtuso, e maculando – talvez a pior coisa, o pior resultado, o mais nefasto sintoma – uma tradição que possibilita pensar em entretenimento aliado à qualidade, à tradição, ou à modernidade, por exemplo.

Não vou gastar o que iria dizer sobre finais redundantes, atuações pífias, idéias com potencial de terem sido originadas da cabeça de minhocas com diarréia. O filme é ruim, esta nova tradição que tem se instalado é ruim, o crítico que o elogiou é ruim, e, tristemente, a constatação é a de que por mais que eu (ou outros muito melhores do que eu) imagine pensar para escrever sobre, tentando alertar, não há pedras que se moverão, nem cabeças que aceitarão. O ideal seria fugir, não gastar o dinheirinho, não municiar a máquina ruim que acoberta e enferruja a outra – que ainda existe, inclusive. Talvez não valha a pena.

Leia também:


Um outro olhar sobre o filme.