UMA PROVA DE AMOR:


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Original: My Sister’s Keeper
País: EUA
Direção: Nick Cassavetes
Elenco: Abigail Breslin, Alec Baldwin e Cameron Diaz.
Duração: 109 min.
Estréia:
Ano: 2009


O melodrama de Cassavetes.


Autor: Gabriel Carneiro

É estranho pensar que o filho de John Cassavetes, Nick, faça melodramas convencionais. Cassavetes pai é símbolo do cinema underground americano, com filmes difíceis, que nos convidam a uma grande reflexão sobre a imagem cinematográfica. Prova disso são seus longas “Sombras”, “Faces”, “Uma Noite de Estréia”, entre outros. Cassavetes filho não tem medo de fazer um cinema comercial, para grandes estúdios. Filmes trágicos e melodramáticos ao extremo. Sua influência parece ser muito mais os cineastas clássicos do que os deflagradores do cinema moderno, entre eles, seu pai. Claro, isso não significa que os filmes realizados por Nick Cassavetes sejam ruins. Muito pelo contrário, Nick parece ter encontrado um ponto nevrálgico em seu cinema melodramático que o torna extremamente prazeroso de assistir, mesmo que escorregue em alguns momentos.

Em Uma prova de amor (péssima tradução, aliás), vemos a história de uma família americana se esfacelando. A filha mais velha tem um tipo raro de leucemia e está prestes a morrer, a mais nova está processando a família por usar seu corpo para repor o que a irmã mais velha precisa, a mãe é obcecada em salvar a filha da morte e nem percebe que os outros filhos existem, e por aí vai. Paralelamente, diferentes histórias de sofrimento se juntarão à central. Quase tudo é motivo para sofrimentos e angústias. Crianças doentes são clichês para o sentimentalismo barato aflorar, para explorar o choro nos espectadores. Ele pode vir, mas não se trata de um filme banal, com esse único intuito.

Enquanto vemos o drama da menina que não quer se subjugar a perder seus órgãos para prolongar a vida da irmã moribunda, seguem flashbacks da história da família. A história em si é muito curiosa. Uma garota de 11 anos resolve processar os pais por usá-la, e vão para o tribunal. Uma forma narrativa encontrada para percorremos a vida da menina com câncer e vermos como sua família se comporta em torno disso. O debate judicial pode parecer, a princípio, a questão central do filme, afinal, é uma questão perfeitamente contemporânea a temas como exploração de menores. A irmã mais nova só foi concebida visando ao tratamento de Kate. Mas, para Cassavestes, isso pouco importa, é um mero fio condutor. Há algo mais importante, mais além, que é o relacionamento e a estrutura dessa família.

As passagens mais belas do longa estão justamente no corriqueiro, na forma com que Nick Cassavetes olha para todo aquele drama. Sua câmera passeia tranqüila pelos ambientes; para os menores movimentos há seu tempo. As cores e as luzes artificiais da noite decoram o andar do irmão sufocado pela completa falta de atenção que sempre recebeu dos pais. A simples caminhada solitária é muito mais efetiva do que possíveis crises histéricas. Cassavetes deixa sua câmera muito a vontade para observar qualquer aspecto que interesse ao personagem, permitindo o uso de câmera lenta para acentuar certos dramas de Uma prova de amor.

O filme parece se encontrar quando, dentro de todo o dramalhão, o banal ganha sentido. Nisso, o romance entre a garota leucêmica e um garoto doente do hospital torna-se o ponto alto da trama. Cassavetes já mostrara o talento em filmar trágicas histórias de amor em “Diário de uma Paixão”. Em Uma prova de amor, o romance adolescente de dois jovens com câncer já nasce trágico: a morte próxima é o único futuro para ambos, cada vez mais incuráveis; a única questão que resta é saber quando será isso. Em determinado momento dessa lembrança, Kate vai ao baile com seu namorado. Não é um baile de formatura qualquer, segue o estilo, mas é realizado pelo e no hospital. Eles saem da pista e correm pelo local, atravessam uma área abandonada lá dentro e se entregam à paixão. Isso já estava em “Diário de uma Paixão”, e tem o mesmo sentido: o prazer acima do proibido. Cassavetes sabe transformar o tabu, o sexo supostamente proibido, em algo avassalador, em algo impossível de se conter. Um pensamento liberal, e tão envolvente, que é difícil não simpatizar com o casal.

Pena que nem de grandes momentos vive o filme. Em certos momentos, o diretor perde o timing, e arrasta uma cena que, a princípio bela, torna-se forçada e clichê, como quando vão à praia, ou mesmo quando a mãe raspa a cabeça. Porém o pior mesmo está no final. Narrado em off pela irmã mais nova, ela encerra com uma declaração clichê e piegas, enaltecendo a memória da família e dos personagens que passaram por ela; trecho que parece ter sido retirado de um livro de auto-ajuda, e pode estragar o filme para alguns. O balanço, porém, é positivo, com um excelente trabalho do elenco (em especial de Sofia Vassilieva, da série “Medium”). Não é o melhor de Cassavetes filho (cargo de “Diário de uma Paixão”), mas certamente faz querer esperar pelo que vem.

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