A ÓRFÃ:


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Original: Orphan
País: EUA
Direção: Jaume Collet-Serra
Elenco: Vera Farmiga, Peter Sarsgaard, CCH Pounder, Jimmy Bennett
Duração: 123 min.
Estréia: 04/09/2009
Ano: 2009


Tudo errado em A Órfã


Autor: Laura Cánepa

Freqüentemente criticado por seus aspectos retrógrados, o gênero horror acaba levando culpas que nem sempre tem. Afinal, é óbvio que, ao tratar de nossos medos mais primitivos e irracionais, esse gênero abordará muitas vezes sentimentos e mesmo preconceitos dos quais certamente não nos orgulhamos. Ao mesmo tempo, ao propor a desordem atormentadora no mundo comum e ao colocar os personagens em luta para retomar a ordem perdida, o horror acaba sendo um gênero quase naturalmente conservador.

Mas nada disso justifica os absurdos da narrativa de A Órfã (2009), longa dirigido pelo espanhol Jaume Collet-Serrat (o mesmo do descartável "Museu de Cera", de 2005) e escrito pelos estreantes Alex Mace e David Johnson. Quem criticou o filme por revelar preconceitos quanto à adoção de crianças viu apenas um dos muitos problemas dessa verdadeira bomba que está ocupando espaço nos cinemas brasileiros.

Nada se salva em A Órfã. A começar pela história: um casal (Vera Farmiga, de "Os Infiltrados", e Peter Sarsgaard, de "Meninos não choram") sofre criando dois filhos (uma menina querida e um menino insuportável) e se recupera das seqüelas de uma crise causada por um aborto e o consequente alcoolismo da mulher. Para ajudar na recuperação da família, eles resolvem adotar uma criança maiorzinha para, supostamente, "transferir o amor que tinham pela criança morta para alguém que precise dele".

Apesar dessa decisão por si só psicologicamente suicida, eles ainda têm o apoio da terapeuta da mulher e de uma freira que entrega a eles, sem muita preocupação, uma misteriosa menina russa que se veste de maneira esquisita e dá medo só olhar - e que muito cedo vai se revelar uma psicopata sem dó, sem limite, sem motivo e muito sem graça.

Bom, mas isso não é tudo. Com a pobre psicopata em casa, os novos pais (que são uns desequilibrados), os irmãos (que são uns covardes), a sogra (que entra muda e sai calada), a terapeuta (que é quase uma retardada) e a freira (que é no mínimo uma irresponsável) cometem uma quantidade tão impressionante de erros que fazem com que torçamos o tempo inteiro pela antipaticíssima russinha, que pelo menos apresenta algum traço de inteligência. Mesmo quando o final surpresa absolutamente previsível revela uma “monstra” mais desagradável do que já ela vinha sendo, a jovem ainda é a única personagem pela qual conseguimos ter algum interesse.

O filme também explora à exaustão o recurso dos falsos sustos, traz uma trilha sonora óbvia, furos de roteiro quase amadorísticos (quem quiser encarar, preste atenção às questões do dentista e dos banhos de porta fechada) e uma decupagem burocrática. Na verdade, chega a ser surpreendente que um filme como esse chegue aos cinemas do mundo todo, quando não se sustenta sequer numa sessão entediante de Supercine. Realmente não vale o ingresso.

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