O FIM E O PRINCÍPIO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Eduardo Coutinho
Elenco: Documentário
Duração: 110
Estréia: 18/11/2005
Ano: 2005


A nova invenção de Eduardo Coutinho


Autor: Cid Nader

"Haveria de ser num ambiente não urbano, qualquer sertão por aí. E eu trabalharia sem nenhuma pesquisa prévia". Com esse comentário, Eduardo Coutinho sintetiza o nascimento de seu mais recente documentário, O Fim e o Princípio, quando sai pela primeira vez sem nada definitivamente concebido: lugar a ser pesquisado, pessoas a serem entrevistadas. Leva em sua bagagem um prêmio da Petrobrás - suficiente para 4 semanas de filmagens - João Moreira Sales - grande documentarista, também - como seu produtor executivo e o cinegrafista Jacques Cheuiche, que garante um documentário com corretíssimo apelo visual. A um dado momento, através de uma tomada, na qual Leocádio Avelino do Nascimento, emoldurado por uma janela, usa suas marcadas mãos para enlaçar seu marcado rosto, o fotógrafo acaba por compor um quadro quase que "expressionista".

Leocádio é conhecido como o "intelectual" da localidade, finalmente escolhida por Coutinho, o Sítio Araçás, uma pequena comunidade, com cerca de 80 famílias, localizada no município de São João do Rio do Peixe, sertão da Paraíba. Cheuiche usa de maneira hábil e humana os rostos marcados dos velhos da região - marcas adquiridas pelo excessivo calor e pelo trabalho cáustico, através dos anos. Ele acaba por imprimir identidade visual à película, com esse cuidado na captação - não que Coutinho seja um relapso quando o assunto é a plástica, em seu trabalho, mas, especificamente nesse, é atingido um grau de excelência raras vezes conseguido. Nada a ver com trabalhos de outros fotógrafos, que usam a "miséria" como meio de alcançar sucesso e admiração, sem nenhum tipo de engajamento e pior: como simples estilo estético, de fácil trânsito pelas carências afetivas e necessidades de manifestações humanitárias de alguns.

O documentarista, fidelíssimo à sua ideia original, escolheu o local, simplesmente, por ter um hotel razoável, com condições de hospedar toda a sua equipe - na realidade tinha alguns "planos B" na manga, e achava interessante a ideia de filmar na Paraíba, terra profícua em poetas populares e de grande talento na tradição oral, de passar as histórias, boca-a-boca, secularmente. "Macaco velho", no bom sentido, Coutinho sabe que extrair depoimentos de seres que ainda não são tão "poluídos", que não foram cativados pelos poderes mágicos de sedução da televisão, pode render frutos muito mais apetitosos e autênticos.

Talvez não esperasse reação tão "agressiva" de seus velhinhos, que além de responderem com espontaneidade, aquela velha sabedoria popular, às perguntas feitas pelo documentarista - sempre em tom intimista e amistoso - invertem o jogo e, invariavelmente, como quem não querem nada, a cada pausa para respiração, sapecam perguntas ao entrevistador, por vezes de teor embaraçoso, mas cheias de genuína curiosidade. Imagino eu - que Coutinho deva ter se sentido mais participante do que nunca em um trabalho seu. E o fato de ter e não ter o domínio total dessa sua obra, acaba por engrandecê-la, passando a se constituir em trabalho único - pela segunda vez, já que seria único pelo início sem destino - no seu vasto currículo.

Que Coutinho está acima, seja um mestre, na arte dos documentários, parece fato notório e óbvio. A grande surpresa consiste no fato de, além de manter a qualidade superior a cada trabalho - parece que nasceu com o dom da invisibilidade, pois nota-se a total desenvoltura de seus entrevistados em seus trabalhos, como se ele fosse uma simples peça de mobiliário -, ser ele capaz de "inventar" temas sempre pertinentes, e quando não - como dessa vez - inventar novos modos de criar histórias, mesmo que elas não existam a princípio.

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